O dia cai, o cinza desce

Vick amanheceu cinza, assim como o céu. Uma garoa insistentemente triste brincava nos vitros juntamente com a tempestade peralta.

– O que você tem hoje?

– Cinzura.

– O que é cinzura?

– Dias cinza. Alma cinza. Olhos cinza. Lágrimas cinza. Vida cinza.

– O que você vai fazer hoje?

– Além de deitar em posição fetal e chorar?

– Sim, além disso.

– Não sei. Hoje é um daqueles dias que a gente ora fielmente para que a morte chegue precocemente, mas infelizmente ela nunca chega. Parece que ela anda muito ocupada com perdedores maiores ou talvez eu não tenha sido uma boa menina.

– Bom, se você for sair, e você tem de sair… Leva um casaco e pega o guarda-chuva. Você sabe como é São Paulo, quando não está um calor dos diabos está um frio do capeta.

– Eu tenho tanta coisa pra fazer. Preciso ir ao centro espírita, tenho orações para declamar, tenho textos para ler, tenho contos para editar… Fora as necessidades fisiológicas que sempre me cansam e me deixam ainda mais desanimada. Acho que eu preciso de algo forte como um cavalo de raça pura.

– O que isso quer dizer?

– Eu preciso beber algo que me derrube ou me dopar com algo que me faça dormir e não me permita sonhar.

As cobertas são afastadas de forma sofrida para os pés da cama. O corpo se levanta de forma trágica. Olha-se no espelho, a imagem é terrível. Os olhos babados de remelas, a boca grossa, branca de baba seca, a pele empesteada de espinhas amareladas, pontos pretos em festa na região do nariz, o cabelo comido só de um lado, os peitos murchos como balões sem gás hélio, a barriga salivando uma desordem natural, as coxas assadas sem tempero, a bunda desuniforme, as unhas do pé servindo de parentesco a tamanduás, e claro, o cinza do corpo namorando com o cinza do dia.

– Toma um banho. Come alguma coisa, você irá se sentir melhor.

– Sabe o que me deixaria melhor? Uma nova couraça. Uma nova derme, essa aqui já era, tá toda puída, toda fudida. Você não enxerga como eu estou na merda, Tânia? Eu sou a própria derrota. Eu sou o infortúnio em carne e vermes.

– Vick, você é tão pessimista. Tão dramática.

– Sai da minha casa.

– O quê?

– Saia já desta casa, não posso continuar olhando na cara de quem tem sede de viver. Não hoje quando eu estou tão perto da morte. Saia da PORRA desta casa e me deixe procrastinar a sós enquanto eu tento encontrar uma maneira de apagar da minha mente todos os feitos anti-heroicos que eu cometi.

– Por que você sempre faz isso comigo? Por que vive me expulsando da sua casa? Da sua vida? Um dia eu vou embora de vez e você vai ficar ai sozinha, sentindo pena de si mesma.

– A única coisa que eu tenho orgulho de não ter nessa vida é pena de mim mesma, o resto nada posso afirmar com certeza, mas pena, é um instrumento que eu não sei tocar. Agora por favor, Tânia… SAIA DA PORRA DA MINHA MALDITA CASA.

Um belo e alto estrondo. A porta se abre. A porta bate e se fecha. As chaves caem da maçaneta da porta. O gato corre para abocanhar as chaves e as arrasta para debaixo do sofá. As janelas se fecham. A escuridão se faz. O corpo se deita. A porta do quarto continua semiaberta…

“Ela volta, ela sempre volta…”.

12 comentários sobre “O dia cai, o cinza desce

  1. “– Eu preciso beber algo que me derrube ou me dopar com algo que me faça dormir e não me permita sonhar.”
    Visceral!!!

    Elas não deveriam voltar, quem sabe a gente encontra alguma cor no cinza com este aprendizado….

    Sempre bom ler seus contos! Um Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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