Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

Cara, amada minha.

 

O fogo invisível queima o restante do que ainda me sobra. Desenlaço as outras cartas por correspondência e as jogo em cima de minha bagunça descontrolada, casando as cartas com os papéis rascunhados, livros e meia garrafa de Domecq.

Por aqui quase beiramos a primavera, porém o sol arde como a brasa do inferno. Não há lenços o suficiente para sugar o suor do buço, nem cuecas que não transpirem mais do que maratonistas em dia de São Silvestre. Tudo aqui caminha de uma forma meio réptil… Os dias rastejam como cobras traiçoeiras e picam tão duido como os escorpiões da África. Uma grande selva árida generalizada, entende?

Há dias que me causam reboliços intestinais e outros que me causam fuga em becos estreitos, e não importa o que eu faço, eu sempre sou alcançada por uma força de contenção gerada pela resistência.

Dramas à deriva… Preciso te dizer que já fazem três dias que não saio deste quarto. O sol nasce. O sol se esconde. A lua brota. A lua brilha e fica com cor de queijo. E mesmo assim, não há pernas o suficiente para encarar o mundo. Não desanimo, até me sinto muitíssimo bem, estendida nessa cama vaga, escrevendo com bravura umas coisas desconexas e profundas. É engraçado, mas era muito mais fácil encarar a solidão quando você estava por perto, porque, instantaneamente, tudo virava uma espécie de solidão a dois, e era tudo menos cinza, um pouco menos míope, menos cansativo.

Sabe, hoje faz exatamente três anos desde que você se foi. Com suas botas de resquício de chuva, aquele jeans perfurado pela guerra, a blusa frouxa nos ombros, colada no umbigo. E claro, os grampos… Exatamente, quinze grampos pretos sustentando seus cabelos pretos.

Questiono-me: do porquê é tão difícil apagar a sua imagem ganhando a estrada após abandonar nossa casa de campo. Você enfiando a chave na porta, jogando sua bolsa sobre o banco do passageiro, botando um maço dos meus cigarros favoritos no painel do carro, apertando o botão errado e ligando o limpador de para-brisas, afundando as duas mãos na buzina, socando o volante, arrancando alguns grampos pretos, me fazendo um gesto obsceno e dando ré… Rumo ao adeus.

O dia anoitece, sou acordada pela lua que brilha como pérola e salga como ostra.

Enfim…

Espero que desta vez, esta carta não volte ao mesmo destino que ela partiu, com os seguintes dizeres: destinatário não encontrado.

Com amor,

Sua Savana.

 

  • Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera

9 comentários sobre “Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

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