As horas estão escritas num futuro impossível

Querida, amada minha.

 

Repouso meu corpo embaixo de uma goiabeira em seu estágio inicial contemplando os pequenos frutos em formação e as folhas esverdeadas que se alastram pelos galhos e se deitam pelo chão. Penso nas horas que voam breves, escritas num futuro impossível… Levo uma fruta a boca, brinco de adivinhar quais são os animais nas nuvens, ouço os pássaros dialogarem entre em si em sua própria língua nativa, respiro fundo… Expiro… Deixo então as memórias fluírem juntamente com o oxigênio que se esvai boca a fora.

Lembra-se, quando costumávamos acordar pela manhã bem cedo só para observar o nascer do dia e agradecermos ao deus do universo e a mãe natureza por toda criação divina? Quando meditávamos ao nos depararmos com os primeiros raios de sol adentrando nossos corpos? Ou quando nos olhávamos, sorriamos uma para a outra e dizíamos: Olha esse sol aquecendo nossas almas…

Recordo-me das vezes que eu me sentava com as pernas esticadas na grama, sem me importar com o pinicar ou com as formigas marchando sob meu corpo, carregando suas pequenas folhas e seus pequenos frutíferos para se aquecerem num inverno que se aproximava. E eu ficava ali só espiando, namorando você de longe, toda alegre e espevitada, com os pés desnudos correndo soltos pelo solo fértil, rodopiando em seu vestido de flores campesinas, os braços abertos como se tentassem abraçar a imensidão do universo, os olhos vivos e ainda mais amendoados pelo reflexo solar, os cabelos flutuantes bailando na direção do vento e um eterno sorriso, cintilante, amável e inesquecível. Eu te admirava e acenava de longe, você parava, agachava-se, escolhia uma pequena flor, sempre a mais bonita, pedia licença à mãe natureza antes de arrancar de seu ventre sua pequena glória e vinha em minha direção sorrindo, sem se importar com a brisa que colocava seu vestido ao alto, deixando a mostra seu corpo esbranquiçado, pedinte de mil sóis. Você se postava em minha frente, ajoelhava, tentava calmamente colocar os cachos rebeldes atrás das orelhas e me dizia: Olha só o que eu trouxe pra você amor… Uma frôzinha… Uma frôzinha pra outra frôzinha…

As horas passaram. Os dias passaram. Os meses passaram. Os anos passaram… Tudo de um modo meio impossível.

Saudades dos velhos tempos que não se voltam e que não se alteram para um futuro eterno. Sabe, ainda sinto sua falta, dia após dias as memórias me comem viva e me descarregam em vasos de cerâmica fria. Por que é tão difícil abrir as janelas para o mundo quando eu não tenho suas mãos para fecha-las em dias de tempestade?

Bom, é isso…

Com amor,

Sua frôzinha.

 

  • Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera

5 comentários sobre “As horas estão escritas num futuro impossível

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