Pensão alimentícia

Uma mãe chora com seu filho no colo no calor de setembro.

O menino, silencioso, observa seu próprio reflexo cabisbaixo em uma das portas do vagão.

Ao redor, pessoas perdidas rumo a suas felicidades nada utópicas.

Dois corpos nos separam de distância.

Um corpo masculino bem a sua frente sem notar as tuas lágrimas.

Um corpo feminino a minha frente, me tampando do amparo a sua dor.

Tão próximas estávamos, antes tão perdidas.

Eu, na minha mania de entender o mundo.

Você, sustentada por seus pés pequenos e brancos, carregados de ossos e solidão.

Nós…

O que éramos nós, afinal?

Complacência de fardos pesados alimentados de ausências de infância?

Eu me vi no pequeno garoto. Eu me vi nos ombros da mãe.

Por um breve momento eu era fogo e água.

Céu e terra.

Amor e ódio.

Pensei: quando eu tiver um filho, vou ama-lo e fazê-lo se sentir especial e amparado.

Pensei…

Pensei…

Como pode uma pequena fase de nossas vidas, uma pequena parcela diante da soma, ter um significado tão grandioso que nos faz perfurar nossos próprios cérebros a troco de respostas para: “no que nos transformamos?”

Desci, olhando sempre em frente.

Observando os humanos que mais a minha frente passavam e subiam as escadas de forma conjunta, porém desconexa.

Um homem acaba de contar e recontar quinhentos e oito reais…

Será que era o salário, uma divida atrasada, pensão alimentícia?

Ele tira uma foto três por quatro da carteira e acaricia o papel.

Uma lágrima rola.

Talvez seja pensão alimentícia.

3 comentários sobre “Pensão alimentícia

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