Sinto falta de mim, em mim

Olá amada,

Útero berra. Chuva despenca. Livros empilhados ao chão. Prateleiras vazias. Fim de mês.

Mudar é uma arte. Mudei…
Pó voou, flores de plástico postas em garrafas de cerveja, cartazes de peças teatrais colados nas paredes e nas portas junto com fotografias de continentes Europeus e Asiáticos, uma foto autoral de nu artístico aqui outra ali, o pisca-pisca de luzes azuis foi parar em uma bolsa cheia de artesanatos dentro do guarda-roupas, os relógios tiveram suas pilhas retiradas, o globo terrestre quebrou, dei fim a minha coleção de garrafas de cerveja, troquei os lençóis da cama, assoprei meu catavento, colei novos cartazes, pendurei alguns quadros novos, pintei as paredes, fiz uma luminária, ouvi Ludwig van Beethoven – Sonata nº 29 em Si bemol maior, sangrei, chorei, mudei.

Sabe, eu achei que estas pequenas modificações iriam me trazer algum animo, alguma vida, alguma esperança… Sentada aqui diante desta folha em branco eu sinto uma enorme saudade da raiva e da coragem… Sim, como eu sinto falta…
Sinto imensa falta do que eu era, do que um dia fui… Sinto falta da raiva que eu tinha do mundo e da coragem que eu possuía para poder fugir assim que a raiva mandasse. É engraçado, as vezes me sinto tão velha, tão acabada, tão fudida. Há dias que passo de três a quatro noites em claro, com olhos bem arregalados travando uma guerra dentro da minha mente sobre quem eu era e o que me tornei. Aonde foi parar meu espírito jovem? Minha raiva do mundo? Eu era boa nisso, era boa em sentir raiva… Esse era meu passatempo favorito, eu poderia passar dias, semanas, meses… Só sentindo raiva do mundo, com a testa franzida, os lábios colados, o sangue pulsante quente nas veias, o coração cheio de ódio, as mãos em formato de pedras, andando somente pelas sombras, criando estratégias de guerra, desafiando deus, adorando o diabo, bebendo vodka as seis da manhã ou simplesmente deitada no escuro com as costas num piso gelado sentindo raiva do mundo, inflando e murchando os pulmões, sugando sempre a palavra: CORAGEM.

Eu era jovem, irresponsável, nada sociável, solitária… Muito solitária, porém, eu era a garota mais raivosa e corajosa da face da terra e isso era o bastante, o principio básico que me fez continuar…
Sinto falta de toda essa raiva e essa coragem, esses dois fatores me deixavam tão forte, tão resistente, que olhando para mim agora busco entender aonde foi que eu depositei toda aquela gana?

Enfim, sinto falta daquela garota que estava sempre prestes a chutar o cu do mundo.

Com amor,
Balalaika.

  • Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera

19 comentários sobre “Sinto falta de mim, em mim

    1. Opa, que lisonjeiro da sua parte este seu comentário desferido ao meu escrito. Fico imensamente feliz ao ler suas palavras.

      Por favor, volte sempre que seu tempo lhe permitir.

      Tenha uma excelente semana.

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    1. Mari…

      Deixe eu lhe perguntar, estou querendo começar um projeto aqui dentro do blog que se baseia na: Interpretação que os leitores obtem após a leitura de cada texto meu. A partir do comentário dele com relação ao que ele interpretou do meu texto eu faço uma interpretação do texto dele e sujiro a ele um texto para interpretar e assim sucetivamente…
      Uma espécie de interação com outros blogs e divulgação do trabalho alheio, entende?

      Curtido por 1 pessoa

      1. Ah, minha linda! Entendi. A ideia é linda, mas no momento luto contra um problema de saúde e estou um pouco debilitada. Não poderia à altura do projeto. Seus textos são fabulosos! Fico encantada com eles.
        Quem sabe, mais para frente.
        Beijo meu e agradeço muito por se lembrar de mim.

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      2. Mari grata pelo seu feedback.
        Que problema de saúde é esse que te assola?
        Espero que você recupere seuas energias e vitalidades muito em breve.

        Tenha um ótimo final de semana mana!

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    1. Tiel, preciso de sua opnião…

      Estou querendo começar um projeto aqui dentro do blog que se baseia na: Interpretação que os leitores obtem após a leitura de cada texto meu. A partir do comentário dele com relação ao que ele interpretou do meu texto eu faço uma interpretação do texto dele e sujiro a ele um texto para interpretar e assim sucetivamente…
      Uma espécie de interação com outros blogs e divulgação do trabalho alheio, entende?

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      1. Entendo mais ou menos. A partir do meu comentário, você não diz o teu ser baseado no meu, é só um feedback recíproco. Errado?

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      2. Você comenta qual foi a interpretação que você obteve em relação ao meu texto. Eu depois escolheria um texto seu para interpreta-lo também. Além de indicar a você o texto de outro alguém para ser interpretado e assim sucessivamente…

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    1. Dani, preciso de sua opnião…

      Estou querendo começar um projeto aqui dentro do blog que se baseia na: Interpretação que os leitores obtem após a leitura de cada texto meu. A partir do comentário dele com relação ao que ele interpretou do meu texto eu faço uma interpretação do texto dele e sujiro a ele um texto para interpretar e assim sucetivamente…
      Uma espécie de interação com outros blogs e divulgação do trabalho alheio, entende?

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  1. Mudar é uma arte, eu nunca ia casar, casei, eu nunca ia ter filhos tive uma, eu gostava de sp, já morei em tantas cidades nestes ultimso anos que já nem me lembro mais,meu cabelo mudou de cor e tamanhao mil vezes, e a cada mudança fui deixando um pedaço aqui , acola, agregando outro. Ate que na ultima mudança(esta foi bem longe), me desfiz de quase tudo e ficou tudo mais leve, estranhamente leve. Eu nem sei o que fazer ocm esta leveza, de verdade, aidna estou com o olhar perdido sem saber, especialmente sem saber com o que ou quem brigar. O coração continua anarquista e gostando de vodka (vodka sempre tem aqui).

    Curtido por 1 pessoa

    1. Vamos compartilhar uma vodka com dia desses Fe.
      Nós vivemos em constante mudança, uma espiral sem fim, tudo se desfaz, tudo se agrega e quando vamos tudo nos molda.
      Gostei do termo: O coração continua anarquista hahaha

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