– A leitura que faço de mim mesma

Olhos pousados nas janelas com uma gota a pender da retina esquerda. Miragens de mim mesma correm na contramão de meu próprio corpo e espírito. É como se tudo o que sou se refletisse nessa janela respaldada pela penumbra das estações da vida. Os tímpanos se ensurdecem com o grave que toca a alma, come o ventre, pisa no próprio raciocínio lógico do termo evasão. Tudo o que eu sou é silvestre, é extinção, é mata fechada para expedição infantil militar depredatória. Bambu por bambu, cipó por cipó, galho por galho, e eu aqui de novo, pulando as arestas de uma selva desmatada pela hipocrisia.

Corpo movimenta-se de forma sutil a tal ponto que o grito quase transpassa a garganta desnuda de atos, eu me viro fronte aos glóbulos acinzentados e travo diante de tantos declínios. O que eu sou, porque não sou quem sou, qual a finalidade do termo: ser eu?

Vou mascando dedos com gosto de açucares de chiclete. Posso sentir neste exato momento o retrocesso e o progresso de meus pulmões. Um maço de câncer bem a minha frente. Uma ponte para o suicídio nos lábios de mulheres que se dizem por mim apaixonadas. E tudo o que eu clamo são camas vazias para que meu corpo repouse sem medo de uma descarga degenerativa.

Quem sou eu que arrota uma sensibilidade tão fedida que poucos são os que aguentam abraçar meu próprio cheiro? Ranço… Ranço de mim ao burlar meu único tormento ao espelho, sendo assim, minha própria imagem… Imagem e semelhança.

Prego minhas lembranças em cruzes de madeira romana e boto para secar ao sol meus joelhos feridos por milhos e tampas de garrafas. E isso sim é tudo o que dentro de mim se soma. Leio cartas, leio bíblias, leio placas, leio regras, leio de fato uma vida. Pouso, me asfalto, vivo então, somente para minhas memórias e minhas raízes brasileiras históricas.

Com as digitais do indicador direito, permito acolchoar uma lágrima que se pende em cordas de Rapunzel. Uma planta se tranca para dentro de seu próprio direito a vida. Leituras são expressas em rodas de conversa. Poesias marginais são recitadas em saraus. Eu como literatura; sou crônica. Cronicamente sem os devidos fins e meios.

 

  • Projeto Scenarium Plural – Crônicas de Outubro.

24 comentários sobre “– A leitura que faço de mim mesma

  1. Compartilhar um conto sobre si mesma mostra que você tem coragem e transparência. Achei lindo.
    Na verdade todo o que escrevemos é sobre nós, cada personagem, do vilão ao herói e à mocinha… somos nós mesmos, sempre contamos sobre nós, na verdade.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fernando, exatamente. Sempre é sobre nós de certa forma né?

      Obrigada por apreciar a leitura que fiz de mim mesma, foi um rojão soltado antes das festas de final de ano, rsrs

      Por favor, volte sempre que seu tempo lhe permitir Fer…

      Tenha uma excelente semana.

      Curtir

  2. Acho que não vou conseguir exprimir o quanto gostei desse escrito. É lindo, intenso, forte. A reflexão do ser é algo que caminha com todo mundo, as conclusões nem sempre são feitas. Tem gente que deixa pra lá antes do fim. Eu mesmo acho temeroso a criação de uma textualidade dessas… As palavras são fortes.

    Muito bom!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Bernardo, nem sei ao certo o que lhe dizer depois de todo esse comentário majestoso. Gratidão por suas palavras e por sempre estar acompanhando meus escritos.

      Tenha um excelente feriadão!

      Curtir

Comente sobre isso

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s