— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta

As portas soam como sinos de fabricas. Os cartões de ponto são demarcados e a liberdade atinge peitos dilacerados pelas horas hostis e deprimentes.

Atraso por atraso e os segundos correndo contra minha própria vida. Precisei pegar um ônibus qualquer para chegar até o centro, meu estomago doía pelos milésimos percorridos, encontrei bilhetes na mochila que tinha ganhado de um morador de rua, um amigo me puxou pela mochila enquanto eu passava apressada pela estação de metrô e disse: “Eai, lixo”.

As ruas do centro me esperavam. O ar poluído, as buzinas, os olhos tristes, os pés cansados, os corpos ao relento, as bitucas depositadas em bueiros, os ratos comendo restos e etc… e etc… Além das ruas alguém almejava minha chegada.

Os abraços foram curtos, os sorridos forçados, o cortejo… muito breve. Caminhamos rumo à liberdade, contando causos, descobrindo coisas, nos lembrando dos nossos finais de semana… Até que a guerra foi posta a mesa juntamente com vinho do porto e talheres de prata.

– Porque você finge que eu não existo quando ela está por perto?
– Porque você finge que também não me conhece quando ela está por perto?
– Eu passei por você e te cutuquei.
– Eu senti, mas eu não podia olhar nos teus olhos ou tocar sua pele.
– Até quando a gente vai fingir que não se conhece e vai passar os dias da semana fingindo que nada aconteceu?
– Sua namorada te ama. Ela olha como um dia eu te olhei. Eu não posso mais fazer isso…
– Fazer o que?
– Isso… Esse jogo estúpido que não vai nos levar a lugar algum. É melhor a gente ficar com nossas respectivas namoradas e seguir em frente. Tudo isso não vai nos levar a nada.

O silêncio se instala. O dialogo emudece. O ar pesa. Copos são cheios aos montes. Drogas são consumidas no meio da rua a céu aberto. O peso do mundo pesa em mim. A ausência de voz pesa em mim. Toda a eternidade pesa em mim. As horas pararam no tempo finalmente.

– Você não vai mais falar comigo?
– Eu não tenho mais nada pra te dizer.
– Você estava toda falante até agora a pouco, foi só eu dizer para seguirmos nossas vidas que você se calou.
– Olha amiga, você diz coisas demais. Você sempre diz coisas demais.
– Bom, é melhor eu deixar você ir então.
– Tchau.

Encostada num muro a observei se afastando sem olhar para trás. Exatamente ali eu evaporei, me desfiz. Eu, uns instantes atrás era tudo, era plena, era fisicamente forte e nutrida, porém, naquela brisa que bateu junto com a despedida sem um adeus, eu antes tudo, agora era um nada, os ombros pendiam, o ar faltava, os olhos lacrimejavam, eu não tinha um norte, pensei em beber até perder os sentidos, pensei em me drogar até perder a minha própria realidade, pensei em deitar em posição fetal no asfalto frio e cinza e esperar pela morte… Eu antes tudo. Eu depois nada.

Duas horas depois, um livro se abriu em minhas mãos frágeis. Com a pouca força e misera fé que me restavam, sentei-me em um dos bancos do metrô a esperar pelo fim da noite enquanto outro alguém não chegava… Abri numa página qualquer que dizia:

Para que cada forma se manifeste, são necessárias inúmeras causas e condições. Não controlamos todas as causas, todas as condições e muito menos todos os efeitos do que fazemos, falamos e pensamos. Mas podemos trabalhar nas nossas intenções, nos nossos votos, nos nossos valores e, agindo através da compaixão, com discernimento, procurar minimizar a dor e o sofrimento no mundo”.

Não resisti. Uma fome me consumiu por páginas e sabedoria e magicamente todo o peso do mundo ia saindo de cima de meus ombros e sentando-se calmamente ao meu lado no banco. Devorei. Devorei. Devorei… Ao final do livro eu só conseguia pensar:

Gratidão pelos ensinamentos e pelos sentimentos causados após essa leitura”.

Após dizer a mim mesma gratidão, cheguei à última página do livro que dizia:    “Gratidão é uma palavra em moda atualmente. Muitas pessoas, em vez de agradecer, apenas dizem “gratidão” e colocam a mão sobre o peito. Gratidão é uma palavra que está conectada com a cultura japonesa. Gratidão aos antepassados, à ancestralidade, à vida, à natureza, a todos os seres”.

Pensei então comigo mesma: “Entendo. Mas ainda assim, prefiro a palavra gratidão”.

Esse livro salvou minha noite, o restante de minhas horas, meu próprio ser…. Então com o livro finalizado colado do lado esquerdo bem rente ao coração proferi em voz alta e em bom tom: GRATIDÃO

O fechei, sorri… Alguém me observava de longe com um sorriso acolhedor nos lábios. Colei minhas mãos em outras mãos. Caminhei pelas ruas noite a fora. Agradeci ao universo pelos sentimentos. Suspirei aliviada. Gratidão então, era a palavra da noite, enfim.

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