– É uma rosa rubra a autora dessas linhas

“Você nunca vai aprender a ler e a escrever. Você é burra demais pra isso, eu desisto de ensinar alguma coisa pra você garota.”

Engraçado como essa frase ainda me acompanha. Como depois de tantos anos eu ainda posso ouvir em meus ouvidos as palavras duras e cruéis de M.

O ano era 1996. Primeira série do ensino fundamental. Eu ali, observando outras crianças acanhadas, rabiscando seus bonecos em forma de palitos, suas montanhas desengonçadas, céu azul, sol amarelo, pássaros com mais de duas asas.
Lembro-me de algo em especifico até… De todos os cadernos encapados de plásticos coloridos, os lápis de cor das melhores marcas, as roupas limpas e bem passadas, os sorrisos despreocupados sonhando com suas histórias infantis. E eu, ao fundo da sala, observando todos aqueles rostos, todas aquelas cores, todos aqueles uniformes brancos e azuis, os cabelos lisos e penteados moldados em gel, e o quadro negro com os seguintes dizeres: “Escreva como foi as suas férias”.

Ninguém ali sabia escrever, ler ou fazer qualquer outra coisa além de rabiscar personagens desfigurados ou paisagens silvestres. Eu por outro lado sabia… Apesar de sempre levar comigo em meus ouvidos que eu era burra demais para qualquer coisa, eu era a única criança na classe que sabia ao mesmo escrever coisas não muito absurdas e às vezes um pouco coerentes.

O tema era chato. As férias haviam sido chatas. Eu passará em casa tendo os cabelos desembaraços a seco, ingerindo pão com ketchup e mostarda, tendo dentes de leite sendo puxados por cordas de barbante amarrados a fechaduras de porta, olhando da janela crianças brincarem nas ruas em dias ensolarados, tentando aprender a ler livros e escrever coisas, ouvindo diariamente que eu era burra demais para aprender.

Engraçado como ainda me lembro do sorriso da Professora Cleuza. Naquele dia seu sorriso veio acompanhado de um elogio e de uma pergunta que até hoje não encontrei respostas.
– Como uma garota da sua idade pode escrever uma história dessas? Essas linhas são muito avançadas para a sua idade sabia? Nunca conheci uma criança que pudesse escrever tão bem com tão pouca idade.

Eu não sabia o que dizer, afinal, não estava acostumada a elogios. Apenas a olhei acanhada, erguendo rapidamente os olhos e sequencialmente os abaixando novamente. Quis esboçar um sorriso, mas me reprimi… Não pude ao menos dizer: obrigada!

Os anos se passaram em quase duas décadas. Ainda ouço pessoas me dizerem:
– Nossa, como você consegue escrever todas essas coisas? Da onde você tira inspiração pra tudo isso?
– Bom, começou mais ou menos assim… Era uma vez: Quando eu tinha seis anos de idade alguém da minha família me falava todo santo dia que eu era burra demais para aprender…

11 comentários sobre “– É uma rosa rubra a autora dessas linhas

  1. Tem coisas que ouvimos na infância e que caminham conosco pela vida afora. Mas cabe a nós acreditarmos e fazermos dessas afirmações nossas verdades ou mudarmos isso, e aceitarmos que ninguém tem o poder de nos tatuar e moldar nossas crenças a não ser nós mesmos.
    Estou sempre acompanhando seu blog! Ótima semana pra ti!

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    1. Karine, de fato não podemos deixar que ninguém além de nós mesmos nos moldem.

      Agradeço imensamente por seu comentário e é muito bacana ler que você está sempre me acompanhando. Em época de pressa e vídeos de Youtube é dificil encontrar pessoas quem apreciam blogues rsrsrs

      Tenha um ótimo dia Ka!

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  2. A gente escuta cada coisa que é bom sublimar pra não pirar, é difícil fazer isso novinha… com 8 aninhos! afe… enfim… entendo o peso desse tipo de pergunta… vamos continuar escrevendo e nos desafiando pra ser melhor pra nós mesmas. Sempre vai existir alguém pra perguntar “como você consegue fazer bla bla bla”? Fazer o que gosta ajuda, não é? rs…

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    1. Sim quando se tem apenas 7 anos quando eu tinha na época é uma coisa dificil e pesada, ainda mais quando você em processo de descoberta e formação. Mas é isso sabe, ainda continuo fazendo o que eu gosto e ainda me pergunto como eu consigo tal feito, apenas respiro e digo: Era uma vez… kkkk

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  3. Sou da turma do – Nossa, como você consegue escrever todas essas coisas? Da onde você tira inspiração pra tudo isso?

    Concordo com a Alda, cada um da o que recebe, ou um pouco a mais do que recebe. Mas, no fundo a busca é pessoal. Abraços 🙋🏽‍♀️

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  4. “Como uma garota da sua idade pode escrever uma coisa dessas”?
    Um dom inato, certamente, mas também a vontade imensa de provar até pra si mesma que não era “burra demais para isso”. Não se amargure! Quem disse isso talvez não soubesse lhe dar mais que isso, porque também talvez não tivesse recebido mais que isso… Sou professora e me identifiquei muito com a Cleuza. Parabéns a ela e a você que venceu!

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