Que mundos te guardem e te apartem de mim…

O mundo é vasto e infinito. Quem diabos sabe dizer qual a melhor localidade para se sentar com a coluna ereta ou com o tronco em posição horizontal para escrever algo além daquilo que a mente diz para rascunhar?

Já tentei de tudo, mesmo esse tudo não sendo (quase nada). Já me dispus a trocar um quarto inteiro de lugar, já fui à feira com caderno e lápis na mão, já me fixei em bibliotecas municipais, já me desloquei a cemitérios, já me sentei ao chão em estações de mêtro na hora do rush, já visitei titias só para usar o cenário de suas casas como palco para minhas escritas, já viajei para outras cidades, já troquei de namoradas para ganhar inspirações novas, já fiquei dias sem dormir quase beirando a loucura e a demência, já escrevi em ônibus lotado passando a cem por hora em cima de lombadas, já fiz de tudo um pouco, de pouco um tudo e, ainda assim, não encontrei o lugar ideal para me sentar e escrever.

Mas é claro, essas disparidades de frustrações literárias não foram engrenagens de todo ruim, todas sem exceção, me remeteram a prazeres individuais melhores que alguns orgasmos que já tive ao longo destes meus vinte e seis anos de existência terrestre. Prazeres estes que me levaram ao clímax nunca antes imaginado ou sentidos por nenhum outro ser humano. Você pode imaginar o tesão que é quando seu corpo todo se formiga após uma história bem escrita, uma crônica bem realista, um poema extremamente nada-apaixonado ou um livro inteiro que você acabou de escrever te deixar com tanto orgulho e prazer a ponto de você querer transar consigo mesmo só pelo fator de sua própria genialidade? Não, brincadeiras e soberba à parte, mesmo sem abandonar o tesão é claro, devo lhes dizer que o processo de criação para mim é algo que vai muito além do que um dia eu pude imaginar…

Escrevendo estas linhas agora, me recordo de um dia no colégio, nesses tempos de ensino fundamental, eu devia ter por volta dos treze anos de idade. Recordo-me de ter cabulado uma aula de português e ter me escondido nos fundos da quadra poliesportiva, área essa que os jovens naquela época costumavam se encontrar para dar inicio a liberação de seus hormônios e ter suas experiências hetero-homo-afeitivas. Lembro que, passei cerca de cinquentas minutos ali escondida escrevendo e entre uma vírgula ou outra, orando para que nenhum casal louco para se conhecer fisicamente ou a dona Cida aparecesse para me repreender e me advertir por eu estar matando aula.

Não tinha um tema predefinido, eu apenas costumava escrever sobre como eu enxergava o mundo, o quanto eu sentia raiva do mundo, o quanto eu odiava estar no mundo, drogas, mulheres que nunca me davam bola, álcool, sabe, o bom e velho cenário adolescente. Pensando bem, tudo isso era um tema predefinido, não? Enfim… Eu sempre fui dessas que se isolam do mundo e se senta em lugares escondidos e quase imperceptíveis para escrever alguma coisa. Claro que existem dias que eu me encontro no meio do caos urbano e não há como me esconder como as fuinhas, mas sempre preferi um lugar solitário para combinar com minhas emoções e observações solitárias.

Costumo dizer que escrevo desde os sete anos de idade. Então, já fazem quase vinte anos que escrevo e dia após dia tudo ainda é um aprendizado, uma descoberta, um orgasmo… Estou longe de ser escritora, nem sei se um dia de fato serei. Alias, não sei se gosto muito deste termo: “Escritora”. Para mim é como um rótulo, e particularmente odeio rótulos. Já não me basta ser rotulada toda a vida como a garota estranha, bicho do mato, esquisita, gorda, feia, fracassada, mulher-macho, satanista, lésbica, preta, burra, depressiva, fresca, boyzinha, dramática, e etc… Acho que estes rótulos todos já me foram o bastante para quase vinte anos de existência.

Se vier a calhar de fazer do restante de minha vida uma amante da escrita e assim morrer de amores e prazeres em seus braços, assim o farei, mas sem rótulos, sem títulos, sem enredos, sem cronologias, sem personagens, sem nada… Apenas a livre e plena condição de colocar no papel tudo o que eu sinto para tirar de minha mente tudo o que me perturba.

Sabe, todo lugar é lugar. Toda hora é hora. Para se escrever e criar algo, basta apenas que você sinta o vômito quente das palavras beijando suas amídalas e as deixe escorrer em tortas linhas para que a magia dos orgasmos individuais aconteça.

11 comentários sobre “Que mundos te guardem e te apartem de mim…

  1. Eu gostei bastante do seu texto, e do blog como um todo! ainda não li outros textos, mas dei uma passeada rapidinha por aqui, e creio que os demais textos aqui contidos, são todos na mesma linha de pensamento, inspiração e genialidade deste aqui, e eu vou adorar ler e reler (afinal, adoro ficar garimpando essas relíquias nas redes, para me inspirar e ler um bom texto como acompanhamento de uma boa xícara de café)!
    Muito bacana, de verdade, e eu até me identifiquei bastante com alguns pontos do texto, como por exemplo, o ônibus que passa a cem km/h nas lombadas (rs, confesso que ri nesta hora), nos casaizinhos atrás da quadra, e até dos preconceitos e rótulos chatos e feios desta sociedade chata e medíocre, que oprime a arte verdadeira e pura, justamente por estar completa e inteiramente dominada por esta mídia podre que aí se faz presente, reféns de um sistema nojento e opressor, que a todo instante vai aos poucos abrindo caminho para uma nova ordem, e que apodrece a mente das pessoas enaltecendo e dando cem por cento de ênfase para todo tipo de lixo cultural que insistem em chamar de arte, enquanto que textos e obras de artistas como você (e talentosíssima diga-se de passagem), são desprezados, que sempre são marginalizados, taxados de loucos, teóricos conspiradores, fascistas, motoristas, taxistas… enfim, vivem sendo encurralados ás margens dessa sociedade cega que idolatra a verdade e despreza a mentira, são o rebanho desorientado assim como descreve Noam Chomsky em seu livro “Mídia, política e manipulação”.
    Parabéns minha amiga, pelo talento, pela pessoa, e pela artista que você é, nem conheço pessoalmente, mas, já admiro muito. Fortíssimo abraço, e beijos.

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  2. Acho que o melhor cenário está dentro da gente. E quando encontramos esse lugar, ninguém mais tira da gente. Esse universo em que somos livres.

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  3. Aposto que teve um orgasmo ao escrever esse textão aí! Hahahaha Que lindeza, esses solilóquios que dá na gente e vira matéria, sem dúvidas encantador… ^^

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