Garota Bukowskiana

Querida amada, observo as chamas em capas pretas com tipografias douradas enquanto uma pequena parcela do sol cobre as sombras de minhas mãos negras após cinco minutos de chuva. Parece que há outra de mim dentro de mim mesma, pois o grande peso da barriga soma a falta de fôlego e a dormência de minhas pálpebras. Sinto que preciso me subtrair, mas nunca existe divisão o bastante para que o mundo me impeça.

O dia hoje se iniciou cinza, as paredes encardidas com furos de broca em meu quarto aparentavam uma leve camada de tristeza. Ao invés de pássaros nas janelas, tudo o que se podia apreciar eram helicópteros construídos pelo homem. Pela primeira vez em meses, fiz uma breve oração ao me levantar, pedi força e proteção aos bons espíritos e agradeci aos mesmos com a palavra da vez: gratidão!

As solas dos pés hoje doeram mais cedo, as pernas pesaram mais intensamente, as mãos se acinzentaram e ficaram quase opacas, os olhos tornaram-se mares vermelhos de solidão.

Acho estranho esse meu modo de caminhar na corda bamba da vida. Há dias que até a maior fortuna contida em meu bolso se torna uma alarmante pobreza, há dias que o estomago super calçado se torna vazio e fundo, há dias que o sorriso mais espontâneo se força para que eu não sucumba as lagrimas de dor e tristeza. Chega a ser estranho, parece que nada do que o universo diga ou faça se torna agradável. Penso até em ser uma pessoa ingrata por não me felicitar com as oportunidades da vida, mas passa dia sim e dia sim também, que até o sol mais amarelo se torna completa escuridão.

Chamas, chamas e mais chamas…
Afogar-se, enfim!
Por falar em chamas, amei imensamente o livro novo do Bukowski que você me deu. Confesso que na hora palavras me faltaram quando o vi ali, postado na cadeira olhando para mim, parecia até que o livro e seus olhos diziam a mesma coisa: “De todo o meu amor, para o meu grande amor”. Lágrimas titubearam e engasgos se formaram dentro de mim, um alfabeto inteiro me faltou e a única coisa que me trouxe de volta a realidade foi o transbordar e o afrouxar das minhas próprias emoções.

Esta semana eu estou seletamente sensível. Parece que o oceano me envolve e a natureza de mim mesma me transpira. Olho para o espelho e me sinto parcialmente jovem, ou ao menos, tento acreditar que não estou tão velha. Toco minha própria face, examino as sombras negras embaixo de meus olhos e elas me dizem: “Olá, como vai você, depressão”?

Observo-me. Procuro por fios brancos em meus cabelos, examino meus dentes, suspendo meus seios e os deixo cair novamente como bigornas. Cutuco minha barriga saliente e volto novamente a encarar minha pele negra, meus olhos negros, minha realidade negra. E quer saber? Quanto mais preta a coisa fica, mais luz adentra a janela de minha alma.
Tic Tac, Tic Tac… Faz a maquina de gravar tipo atrás de minhas costas enquanto eu caço letra por letra numa caixa grande de madeira.

Meu corpo formiga. Sinto às vezes o ar faltar. Lembro do vaso com as flores que você me deu ontem e estranhamente as coisas seguem a contramão da vida.

Com amor,
Sua garota Bukowskiana

6 comentários sobre “Garota Bukowskiana

    1. Periclesemr, obrigada por seu gentil comentário. Fico extremamente lisongeada a ser comparada mais poeta do que o grande mestre Buk.
      Um pouco do que eu sou hoje é graças a litaratura dele.

      Seja bem vindo ao meu blog e volte sempre que seu tempo lhe permitir.

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  1. Maria Vitória, vc é genial! Adorei seu post. Coincidentemente, comecei a ler semana passada “Mulheres” e confesso que ainda não me apaixonei inteiramente pelo autor, espero que aconteça! Bjo grande.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ju, gratidão pelo seu comentário mana.
      Então, Buk é meu escritor favorito, foi tesão litarário a primeira vista. Mulheres é um bom livro de poemas, mas te aconselho a ler: Misto Quente, Ao sul de lugar nenhum, queimando na água, afogando-se nas chamas. Foram um dos que me fizeram ficar apaixonada pela escrita do autor.

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