Tudo Puta!

Ela galopou através do deserto e estacionou seu pequeno jegue em minha varanda, trouxe consigo um punhado de facas sem cabo, chupetas sem alça, e dois isopores vazios.

A convidei para tatear o solo azulejado enquanto ela dizia:

– Ei, olha o que eu trouxe lá de casa para você, querida.

E eu disse:

– Ok. Ponha as facas na cozinhas junto com as chupetas e deixe os isopores atrás da porta da sala. E então ela disse:

– Estou cansada. Cansada, sem pregas e faminta, você sabe, foram milhas de léguas até chegar até aqui.

E eu disse:

– Tire as botas enlameadas e as deixe aqui para que o gato as lamba como sorvete de frutas.

E então ela engasgou e riu ao mesmo tempo, depois soltou um pequeno peido e corou levemente, depois voltou a dizer:

– Estou cansada. Cansada, sem pregas e faminta. Você sabe, foram milhas de léguas até chegar até aqui. Você sentiu saudades minha?

Não respondi.

E então ela retirou as botas e as serviu para o gato. Jogou a fivela do cinto dentro do vaso de samambaias, pendurou o chapéu em cima do elefante no centro da mesa de estar.

– Você acendeu por aqui aquelas incensos que eu te mandei pelos correios no ultimo natal?

– Sim, claro. E também pendurei aquele quadro de seu pai no leito antes dele ir levar um lero com deus.

-Estranho… sinto cheiro de perfume de puta no ar. Todas aquelas vadias ainda andam com as tetas caídas por aqui?

– Ei, não fale assim de outras mulheres.

– Você acha que eu não sinto o cheiro de putas baratas de longe, não é mesmo?
Putas. Putas. Putas…

– Venha, vamos tomar algumas doses e conversar sobre sua longa viagem.

– Putas. Putas. Putas.

– Ok. Whisky com gelo ou com dois dedos de água para você?

– Puro.

Será que podemos ouvir um blues e dançar embaladas enquanto desfrutamos de nossas bebidas e matamos nossa saudades?

– Quem mais esteve nesta maldita cama?

– Ninguém além de mim, Isa.

– Eu duvido, olha só esses lençóis… puídos e encardidos como uva passas.

– Você enlouqueceu só pode. Não existe mais ninguém além de você em minha vida.

– Você é uma puta tratante igual aquelas cadelas que você comia enquanto eu estava com meu pai morrendo por causa daquele maldito câncer de próstata.

– Acho melhor você ir.

– Como disse?

– Eu disse, é melhor você se mandar daqui!

– Eu não vou a lugar algum e quero ver quem vai ser mulher o suficiente para me tirar daqui.

– Olha, eu cansei dessa sua loucura. Tudo pra você eu estou com outra mulher e blá blá blá…

– VOCÊ GOSTA DE COMER PUTAS.

A peguei por um dos braços enquanto tentava equilibrar em uma das mãos meu copo de whisky duplo com água.

– Pegue suas bugigangas e suas botas lambidas por este maldito gato e dê o fora da minha casa. Dê o fora da minha vida.

– Ei, você não pode fazer isso comigo Vitoria. Não me trate como uma de suas putas baratas.

Abri a porta da sala, joguei suas tralhas de viagem pelo corredor, a empurrei porta à fora, me afastei e bati a porta com força em sua cara. As chaves caíram ao chão, o quadro com a imagem da nossa senhora aparecida cambaleou, mas não cedeu. Graças a Deus.
Me virei, entrei na cozinha, peguei um dos ovos em conserva em cima da mesa e o joguei dentro do copo de whisky.

– Putas… Putas… Putas… Putas… Putas… Putas…

Suspirei fundo. Fui para o quarto. Tranquei a porta. Apaguei as luzes. Dormi pesadamente.

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