Feliz Ano Velho

Estava eu ali, beijando os bocais tristonhos de uma inverdade quase desfalida; quando me pus de pé ao embranquecer dos pentecostes universais traidores de minha própria sorte.

Busquei as drogas como um refugio prático a vida miserável pela qual meu sorriso não vingava, buscando sempre uma maneira eloquente de findar um coração esburacado pelas guerras que a rotina me calçavam. Entretanto, os clamores permutáveis de horas postas de joelhos semi-rachados, nada me traziam como glórias e eu estagnava ali… Contando as crostas de um irrisório despretérito.

Nada. Nada do que eu fosse anulava a utopia pela qual eu me transpassei. Tentei burlar minhas insólitas essências, de uma maneira que possível fosse de reviver aquilo que há tempos já havida me findado. Outra vez, nada. Nada do que eu fui, ou tudo que o termo “nós” fostes… Mais uma vez, tudo o que o ano me fez comer eram sobras de um peru com gosto de dezembro inacabado.

Pensando aqui comigo, cerca de quase 365 dias atrás, lá estava eu a caçar fantasmas de passados inexistentes, buscando extrair o óleo de uma infância que nunca me pertenceu. Marcos, esse era o nome do homem. A figura de gênero biológico masculino pela qual meus sonhos freudianos despertaram-me no dia da despedida de um ano velho-semi-quase-novo. Eu, quase vinte e seis anos. Um ano e dois meses de terapia. Onze anos de depressão continua. Filha bastarda da solidão. Puta carrasca das drogas.
Eu…

Poços insalubres, por poços insalubres se fez: 2017. Um declive, um suicídio. Parafusos e placas metálicas respaldando um tornozelo. À volta aos mortos que já vieram. Paredes brancas com cicatrizes de mariposa. Coleção de garrafas de cervejas importadas. Gatos dependurados em pés quebrados. Banhos com saco plástico em cima de cadeiras para deficientes defecar. Era isso o que eu era. Isso sim resume o pouco do que por um ano fui.

Engraçado como o sol pode te deixar emocionada quando suas pernas já não andam por conta própria e tudo o que você tem são quilos acumulados em cima de uma cama de casal solitária demais para fazer par.

Um ano eles me diziam, e eu seguia caminhando passo a passo como se quisesse alcançar a porra do maldito deus que riu de mim nas minhas costas.
Um ano eles me diziam, e eu seguia caminhando lado a lado com a porra do diabo em cima de meus ombros largos e basicamente fortes.
Um ano eles me diziam, e eu seguia caminhando como se a porra da Ave Maria fosse apenas uma mulher que sangra ralo a baixo em dias de sol mesclado com chuva.
Um ano eles me diziam, e eu seguia apenas caminhando após imersão de baldes com gelo e água quente.

Se eu falar sobre sonhos e objetivos nestas trepidas linhas, me grite: MENTIROSA.
Se eu falar sobre desejos e foco nestas trepidas linhas, me grite: MENTIROSA.

Agora se eu disser, maldito ano velho, me grite: FELICIDADES.

Sabe, quando se começa o primeiro dia do ano desejando a morte enquanto lágrimas são dependuradas pelo pescoço, o que se pode esperar de um ano com final 7?

Uns tem crenças cabalísticas. Outros representam o dia 7 como dias de azar. Eu mesma, cago e me permaneço suja com relação aos números, uma vez que de 0 a 10 todas as estatísticas me levam diretamente a números impares.

Mas, não posso negar a vós o semblante de algo tênue e morno. Caso eu diga apenas: “anos de desgraça”, minto para ti de forma debochada. Claro, nem só de dor e rancores o ano passou beijando as costelas de minha desejosa morte. Pouco a pouco, quase nada, um fato aqui, outra migalha ali, um texto aqui, um livro ali, um namoro aqui, uma fotografia ali, uma espiritualidade aqui, um conhecimento ali, e etc… etc… etc… Basta.

O que me fica agora é: “Adeus ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer?”

Dane-se: “Feliz ano velho seu merda”.

Com amor,
Estranhamente Noel.

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