No calendário: 2 de Janeiro de 2018

Ouço o fervor humano borbulhar em meus ouvidos ao mesmo tempo em que tento acender um cigarro. O vento sopra forte me impedindo de alcançar as chamas. Meus olhos cruzam as calçadas entre a Praça da República e a Rua Sete de Abril.
Levo ao pulmões e depois ao cérebro, fumaça proibida com cheiro de marginalidade.
Caminho por entre corpos ao chão, poças d’água, pessoas com pressa e baratas.

Fotografo tudo com meus fleches cerebrais, cada pé sujo e rachado, cada centavo gasto, cada farda, cada “droga”, cada cor, cada arte, cada cultura, cada trafego, cada história, mas principalmente, cada olhar que ninguém observa.

Vejo olhos azuis, pretos, castanhos, verdes, cinzas… Abocanharem uma solidão eternamente triste, tão triste como uma canção de amor não correspondido. E estes mesmos olhos tristes passavam por outros olhos tristes e tristeza nenhuma se cumprimentava.

Cortei para a Rua 24 de Maio e resolvi entrar na galeria do rock, assim que entrei vi diversos produtos que um dia foram moda e hoje voltaram novamente para enfeitar vitrines com artigos de marca americanizada.
As pessoas transitavam por ali com um padrão coletivo, e eu me sentia numa atmosfera tão diferente que me projetei para a época da escola. Eu, a diferente, a estranha, no meio de tantos diferenciados “iguais”.

De andar em andar, de vitrine em vitrine observando o consumo, observando a falta do acesso. Parei no terceiro andar e fiquei tentando decifrar as pichações nas paredes. Passei alguns segundos tentando captar as respectivas mensagens e cheguei à conclusão de que tudo o que se cria, poesia é. E as palavras falavam de amor, de arte, de respeito, de visibilidade, de causa social, de denuncia, de violação, de status, de liberdade.
Sorri tranquilamente após olhar para aquelas paredes.

Me virei para descer e caminhar por outras ruas do centro e vi um rapaz com provavelmente dezesseis anos, fazendo uma “live”, mostrando os cenários da galeria do rock, dizendo:
Gente, estou nesse exato momento aqui, na tão famosa galeria do rock, cheia de coisas pretas e pessoas estranhas.

Nos olhamos brevemente, ele abaixou o celular e tentou disfarçar que estava gravando, eu apenas o olhei nos olhos por dois segundos e segui em frente.

Ao voltar às ruas fiquei presa numa travessa da praça Ramos de Azevedo, em frente às casas Bahia. Um home denominado, Samu San dizia que:
O ano começa de verdade hoje, dia dois de janeiro. É hoje que as pessoas realmente tocam suas vidas, seguem pro seu trabalho. E as mesmas pessoas que passam hoje por aqui apressadas e cheias de raiva são as mesmas pessoas que não viam a hora desse ano começar pra fazer coisas novas, realizar seus desejos e sonhos.
E eu pergunto pra vocês, sabem o que essas pessoas fazem pra realizar aquilo que elas tanto querem? Isso mesmo, nada. Entra ano e sai ano e ninguém anota em um lugar visível e mentalizam para si aquilo que elas tanto querem. Elas apenas esquecem e desistem…
Ontem eu passei por este mesmo lugar e não encontrei ninguém nas ruas, ninguém tava fazendo nada, ninguém deu o primeiro passo, só olhou para o relógio e esperou o dia primeiro passar pra realmente começar a reviver a vida a partir do dia 2.

Fiquei ali alguns instantes pensando na verdade crucial daquelas palavras e no que eu andava fazendo para mudar os meus dias, para guinar a minha vida, para atingir as minhas projeções e a resposta foi: “Não tanto quanto. Mas esse ano vai ser diferente. Esse ano vai ser o ano da reforma intima e do crescimento espiritual”.

Quando Samu San desejava a toda humanidade mais empatia, amor e caridade, uma ação policial ocorria. Um policial militar numa moto abordou com uma arma em punho, um jovem asiático que dirigia um Corolla azul marinho com pastilhas vermelhas nas rodas, ano 2016. O policial apontou a arma ao jovem e ficou com o dedo no gatilho até o rapaz descer do carro com as mãos para o alto.

Samu San começará a cantar uma música de sua própria autoria. Pessoas passavam e observavam a ação policial. Pessoas passavam e liam a grande faixa que dizia “Samu San. O grande”.

Um homem com seus cinquenta e quatro anos aproximadamente caminhava de um lado para o outro com dez cds nas mãos de Samu San.

Um vendedor de água passava pelos olhos curiosos com seu microfone e seu carrinho, anunciando: “Água. Água geladinha e gostosinha, por apenas um real”.

O jovem do carro tenta argumentar com o policial militar. Resolvo então me sentar nos degraus no Teatro Municipal e anotar os detalhes que se davam ao redor.

Cinco moradores de rua falavam em como era uma merda as pessoas passarem em frente ao teatro só pra tirar foto e pagar de cultural, sem olhar em volta e ver que no mesmo lugar que eles estavam tinha gente passando fome, gente sendo abordada pela policia de forma truculenta, gente fazendo show pra ganhar alguns centavos, e gente usando droga pra espantar a fome e a solidão.

Tentei escrever esse texto sentada nos degraus, mas não consegui. Caminhei até a biblioteca Mario de Andrade. Me sentei em uma mesa do lado de fora. Abri meu caderno e escrevi todas as minhas metas para 2018. Observei cinco jovens projetando se tornarem Rappers e fazer show para milhares de pessoas. Um dos jovens, o mais sonhador e motivador era uma garota fora dos padrões tidos como “feminino”. A chuva veio e espantou todos que ali estavam. Fiquei mais cinco minutos recebendo no corpo pingos de água quente e mormaço. Entrei. Me sentei ao chão. Escrevi essa primeira crônica do ano.

2018 promete!

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