No calendário: 25 de Janeiro de 2018

As ruas ferviam e pessoas e mais pessoas brotavam como se fosse um grande espetáculo para o fim dos tempos.

O calor era insano, clima abafado, suor banhando os corpos de todos que por ali habitavam…

E então ali estava eu. Av. Paulista fechada, somente bicicletas do Bradesco em circulação, algumas pequenas apresentações artísticas e rostos semi-iguais, quase sem nenhuma expressão.

O Masp disponibilizava de visitação gratuita: “Guerrilla Girls, gráfica: 1985-2017”, “Histórias da sexualidade”, “Tunga: o corpo em obras” e “Acervo em transformação”.

É engraçado como as pessoas observam a arte. Elas seguem todas em fila uma atrás das outras, olham uma tela por dois segundos, tiram uma foto da obra de arte e postam nas redes sociais com hashtags e localização.

Fotos, quadros e esculturas de corpos nus. Pênis e bucetas totalmente visíveis aos olhos de pessoas majoritariamente brancas e de uma classe social específica.
Ao se deparar com uma sequência de imagens de bucetas em fotos cinza, uma garota diz: “Isso aqui é impróprio”.

Mais adiante, uma pintura me chamou a atenção. O cenário se assemelhava ao Rio de Janeiro, um homem branco sentado ao chão com uma criança negra sentada em seu colo tomando água de coco, enquanto outro homem branco, loiro e estrangeiro os observava enquanto caminhava puxando uma garotinha negra pela roupa, deixando visível sua calcinha enquanto ao seu outro lado havia outra garotinha negra o acompanhando. E o gringo sorria com as duas negras ao seu entorno enquanto observava uma criança no colo de outro adulto.

E as pessoas olhavam aquela tela e ninguém dizia: “Isso aqui é impróprio”, ou “Isso aqui é pedofilia”, ou “Isso aqui é objetificação e exploração da mulher negra”.

Pênis branco, murcho e pendurado.
Bucetas brancas e corpos femininos nus pintados e moldados como arte.
E um dos únicos quadros que possuía como protagonista o “negro” era de uma forma pejorativa e exploratória.

Já no centro da cidade as cores eram outras. Havia uma grande mistura de urina, álcool e fome.

E moradores de rua dormiam enquanto pessoas passavam por cima deles para acompanhar os shows e antecipar seus carnavais.

Muito álcool. Muita maconha.

E mulheres brancas passavam por entre homens negros moradores de rua e usuários de drogas segurando firmemente suas bolsas com o medo estampando seus olhos.

Cinema pornô com “atrações femininas” apresentavam seu produto “mais barato em comemoração ao aniversário de São Paulo”.

Vale do Anhangabaú infestado de GCM composta por 95% de homens negros, alguns haitianos e estrangeiros de outros países africanos, correndo e agredindo outros homens negros que vendiam suas mercadorias no meio da grande festa.

Visualiza a cena: GCM roubando a mercadoria de pessoas que não estavam contribuindo diretamente com seus lucros para o Estado.
Homens e mulheres que estavam apenas tentando ter um dinheiro extra, pois seus salários mensais nunca são suficientes para supri-los ou suprir suas famílias, sendo “agredidos” pela GCM enquanto “policiais militares” faziam a escolta e fiscalização da ordem da própria GCM.
Ao redor, três ou quatro pessoas comovidas com a cena gritando:
“Vocês só prendem trabalhador que tá tentando ganhar a vida honestamente, os políticos que roubam a gente todo dia vocês não fazem nada. Vocês só estão aqui roubando de quem não tem porque o DÓRIA mandou.”

Pessoas fingem que nada acontece e tiram suas selfies enquanto desviam de pessoas que tentam fugir com suas mercadorias da fiscalização.

E um adolescente negro, com as roupas rasgadas, os pés descalços, o cabelo desgrenhado, foge no meio da multidão com um celular na mão como um rato assustado enquanto um homem negro de pele clara corre atrás dele e uma mulher branca, loira grita: “pega ladrão”, e três homens brancos saem correndo atrás do adolescente gritando: “Vamos linchar ele“, “preto safado“, “ladrão“.

E outras pessoas observam com seus copos de bebida nas mãos e sorriem.

E um carro de som na esquina da Ipiranga com a São João toca, Pabllo Vittar e todo mundo volta ao seu antecipado carnaval de rua.

464 anos completa a cidade de São Paulo. Felicidades “cidade linda“.

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