Sexta-Feira 12

Vidas brotam de fontes de água cristalina e bueiros sem tampa…

E uma mulher negra com um Eight na boca apagado e sessenta por cento do corpo queimado, tropeça na guia da calçada.

E um velho já morto espera sua passagem para o prometido paraíso na porta de um hospital público.

E duas garotinhas brincam no quintal com garrafas pets vazias num calor de 32 graus, e sua avó as olha com dor nos olhos e saudades da infância na boca.

E há salões de beleza cheios de fumaça, alisando o cabelo de mulheres que moram na periferia.

E existem motoqueiros e atendentes de posto de gasolina contando moedas para almoçar salgados de 1,50.

Ao sair para as ruas olho para o céu e ouço as nuvens dizerem: chuva!

Atravesso a rua fora da faixa, é errado eu sei, mas eu precisava correr para não perder o costume de dar bom dia pro morador de rua que mora do lado de lá da calçada.

Hoje é dia de feira e tudo é um caos…

O milho é assado no cruzamento da avenida.

O peixe é cortado no colo do feirante.

A fruta é comida pelas senhoras que nunca compram e pelas moscas que sempre roubam.

A barraca do pastel tá seis reais e no meu bolso eu só tenho três pra matar a fome.

Aumento o som um pouco mais alto de uma forma que desvie as buzinas dos carros para bem longe de minha cabeça.

Ouço: Fogo na Inveja – Mc Menor da VG.

E então deslizo de forma macia rumo à sexta-feira.

2 comentários sobre “Sexta-Feira 12

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