Fome de pele. Lábios incolores de cola

A jugular dela pulsa tão impaciente enquanto um singular raio de sol num domingo repousa sobre as orelhas dela.

Fico bem de perto observando o sangue pulsando bravamente, imaginando o quanto de força é necessário para alcançar uma morte indolor.

Tento cheira-la para guardar uma breve recordação de seus poros em meu cérebro, mas infelizmente sua pele não tem cheiro de nada.

E então fixo meu olhar em sua boca. E seus pequenos lábios parecem estar colados com uma super cola. E mesmo agora um segundo raio de sol encostando neles, ainda assim, eles nunca mudam de cor.

Tento ouvir um respirar…
Tento ouvir um respirar…

Tudo nela é tão silencioso que se eu não estive com meu braço esquerdo em cima dos seis dela e não os sentisse tão fervilhosos, poderia dizer facilmente que ela estaria morta ao meu lado em minha cama.

Meus dedos formigam.
Meus dedos formigam.

Afasto dolorosamente minhas mãos para longe deste corpo em brasas e as coloco no meio de minhas coxas grossas.

Ela suavemente se vira de frente para mim e tenta alcançar meu braço novamente para abraçá-la.

Eu me recuso.

Ela insiste em me buscar com os olhos fechados e com os lábios sem cor, colados.

Me entrego.

Passo mais um tempo ali, ainda mais perto do silêncio, olhando o sangue pulsar em seu pescoço, tentando captar a sua essência.

Um terceiro raio de sol surge e se senta bem em cima dos mamilos dela.

Observo…
Observo…

Aos poucos os mamilos dela crescem e ficam duros e salientes por debaixo da blusa branca de alças finas dela.

E isso me deixa com fome…

Sorrateiramente passo a ponta de minha língua no pescoço dela.

Ela apenas franze a testa e solta um grunhido infantil.

Deixo com que tudo se acalme…

Um copo de vidro explode ao chão no andar de cima, mas eu ignoro a força com que o barulho chega a meu quarto e sigo esperando por uma reação diferente do corpo dela.

Minha língua molha o rosto dela.

Ela apenas franze a testa e solta um grunhido infantil e tenta abraçar meu braço de um jeito forte. Ela me prende ainda mais pra perto dela como se tentasse não perder aquilo que há tempos tentou amar e falhou miseravelmente.

Num último ato de soltura passo novamente minha língua pela bochecha, olho e testa…

Ela acorda. Me cospe algumas flechas com o olhar.

Os lábios não se descolam. Ainda estão intactos juntos. Incolores.

Desisto.

O sol finalmente desponta por inteiro por entre a janela.

Ela se vira me dando as costas. Agarra o cobertor de pelos. Fecha as janelas de um modo que deixe o quarto todo escuro e nebuloso.

Dorme…
Dorme…

Agora estou aqui, tentando escrever no escuro enquanto minha barriga grunhe algo semelhante à fome de pele.

Fome…
Fome…

7 comentários sobre “Fome de pele. Lábios incolores de cola

  1. A forma como consegue imprimir a sensações em seu texto é fascinante, parabéns, essa sensação que descreveu é tão… palpável. Sua descrição, como orquestra as sensações, reações e em especial os detalhes, imprime um realismo, acho que não é o termo mais adequado, na narrativa, sua habilidade com o texto é notável. Ao ler fiquei lembrando de momentos em que fui acometido por essa sensação, a humanidade do seu texto é marcante. Parabéns e obrigado pelo texto incrível.

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  2. E eu fico pensando, que tenho pena de tanta gente, que segue lendo o desencanto, causado por quem não sente…
    Teus textos estão vivos…E por vivos, não estou sendo figurativo. Eles estão vivos. Como eu e você. Sabes disso não? 🙂
    Beijinhos.

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    1. Jauch, fico lisonjeada por tuas palavras.
      Acho que é esse o sentido da vida sabe, pode transpassar o que nos transborda a tal ponto que tudo o que somos são retratações dos avessos de nós mesmo. E isso é vida, e isso nos faz continuar.

      Fico muito feliz quando te tenho por aqui e posso ler teus comentários tão sinceros e motivadores.

      Tenha um excelente dia Jauch 🙂

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