Linhas. Feijoada. Fim de carnaval

Há dias que se iniciam em formato de flocos de neve e no decorrer dos ponteiros se tornam pingos de chuva e depois o céu manda uma breve tempestade, mas então quando você menos espera um único raio de sol desponta quando a noite esta prestes a dar sua graça.

E você se pega olhando para o espelho num banheiro pequeno dentro de uma biblioteca pública e você tenta olhar para si mesma de uma maneira única e ao mesmo tempo debochada. E então você tenta preparar um discurso que será dito em frente a uma câmera, mas você está tão assustada e fragilizada que você não sabe o que dizer sobre si mesma.

O microfone é ajeitado na camisa. A lente estabiliza focando seu rosto. Alguém diz: “gravando” e então você gagueja três vezes antes de começar a dizer o quanto a vida é uma coisa doida do caralho.

Uma. Duas. Na terceira vez você desembesta e acaba ultrapassando o próprio tempo, os pássaros fazem ruídos, o vento balança com voracidade as árvores e as plantas, e você deixa apenas tudo transbordar de forma poética.

Uma garoa fina cai bem devagar. Os carros passam muito rápido em cima dos trilhos.

Atravesso a cidade com um livro sobre teologia feminista nas mãos e a cada segundo me pego espiando as horas.

Um café quente e uma água tônica. Saches de açúcares com os dizeres: “elogie mais as pessoas” e eu acabo elogiando alguém com uma pequena xícara de café amargo nas mãos.

Uma primeira vez. Um novo lugar. Cafés. Livro. Uma então nada desgastada relação mantida pelo tempo.

Vejo a noite cair serena e a chuva pingar de forma sutil e continua. Um guarda chuvas é aberto e um braço é cedido para servir de apoio a outro braço.

Passos curtos. Sorrisos fartos. Gargalhadas com sabor de “espero que essa noite jamais se acabe”.

Um morador de rua faz aniversário e lhe dou dois reais para comprar uma garrafa de cinquenta e um para que ele comemore mais um dia de vida ao lado de seu namorado.

Me sento nos últimos bancos de uma estação de metrô e observo a humanidade ir e vir, chegar e partir…

Passo quase duas horas ali travando diálogos e desenterrando memórias. Um sorriso surge, um abraço se torna ainda mais apertado. Os olhos nos cercam curiosos quando gargalhamos de algo engraçado.

Escrevo um bilhete e o dobro quatro vezes antes de entregar e digo: “só abra quando eu não estiver mais aqui”.

Plataformas opostas. Saco meu celular e escrevo estas linhas. Faz quinze dias que não escrevo nada.

Engraçado como as quartas-feiras de feijoada se tornam fome uma vez que é quarta-feira de cinzas.

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