2 por cento. 8 minutos de sobra

O céu anuncia chuva forte. Árvores tentam decepar suas próprias raízes e fugir para longe. Pessoas aos montes brotam correndo desesperadas receosas por uma tempestade. Avisto um rosto conhecido e abraço o mais apertado que eu posso o corpo de uma mulher. Gotas pingam em minha camiseta polo cor de vinho usada pela primeira vez.

Em segundos a humanidade se enclausura num quadrado apertado e fica a espreita com medo de derreter na chuva. E eu ali, bem no meio de um mar de gente, observando como o ser humano age no decorrer dos ponteiros dos segundos.

Os olhos curiosos e perdidos e amedrontados e clandestinos. E os perfumes seminovos e o cheiro de podre e as essências das almas engarrafadas com flores e enxofre.

E uma matilha se forma. E as escadas rolantes não param de funcionar a todo vapor levando e trazendo uma nova gama de subjetividades e cores.

Quando não, risco meus próprios olhos nos carros cinza que passam apressados e pulam fagulhas de mim, sim, pulam fagulhas de mim… E eu tenho uma imensidão de olhos me olhando através de vidros de plástico e também um belo par de olhos acastanhados me olhando fixamente e continuamente, me invadindo sem parar, me estudando, me fudendo, me amando e me cuspindo fora. E isso faz com que eu me envergonhe por três segundos antes de fincar minha âncora em retribuição ao olhos sedentos de desejo.

Quando me pego um pouco entre o chão e um pouco sobre a superfície me deixo transitar para bem longe… De uma forma que um longo e extenso cordão me solta e me prende, mas me permite acima de tudo, flutuar…

Estiro meu coração sobre um tapete imaginário e digo: “Pisa nele”. E ela não pisa. “Pisa nele”. E ela não pisa.

Quando dou pela realidade, observo uma mulher aos prantos e soluços. Um homem a obriga a cessar às lágrimas e a ameaça ferozmente. Fico apostos para agir. Ela então cessa. Ele deixa o próprio cartão de crédito internacional dois bancos depois de mim e ambos partem não sei para onde.

Me pego encaixando peças de quebra cabeças em lembranças jamais remontadas. Rimos de nosso próprio riso. Estipulamos porcentagens para o amor uma da outra. Olhamos. Rimos. Deixamos que nossos rostos se choquem de maneira nada traumática, totalmente natural.

Me lembro de laranjas com sal. Finais de semana com crianças urinadas e vomitadas. Pomba morta com asa direita quebrada. Churrasco. Igreja. Montanhas com sol. Cair da noite com temperatura a 11 graus Celsius.

Início uma conversa aleatória numa despedida prévia. As portas se abrem. Digo que sou escritora. Ela me pede para recitar uma poesia ali, do nada, sem nada planejado, sem ler nada, uma poesia de última hora para marcar uma despedida que jamais será eterna. E então falo sobre covas fundas e abismos, sobre nada se assemelhar a morte, mas sim, a uma breve vida. E então eu deixo as palavras me conduzirem, e ao final, eu sou surpreendida com um beijo daqueles apaixonados e desesperados.

Não tenho meus músculos tensos. Não tenho minhas mãos gotejantes. Não gaguejei em nenhuma estrofe.

O relógio marcava, “oito minutos de sobra”. O dobro!

Seguimos caminhos opostos. A chuva ainda cai. Me sinto pronta para seguir…

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