No calendário: 01 de março de 2018

Um macacão azul. Uma boca pintada de “nude”. Pautas feministas para serem abordadas às 19:00h na biblioteca Mario de Andrade.


Os ponteiros sobressaiam às horas, era tempo de correr para atravessar a cidade. Corre pra pegar ônibus. Corre pra pegar metrô. Corre pra pegar ingresso.

Ainda tínhamos uma hora antes que o evento começasse, eu não tinha pretensões sobre a noite, eu só tinha um beck, uma garrafa de 500ml de vodka sabor frutas vermelhas, e uma uva verde calçando meu estômago.

Percorri as ruas do centro na presença de Carolina. Conversavamos sobre assuntos políticos e as origens do universo. Apreciamos juntas as cores e os cheiros que o centro da cidade proporciona. Parecia um outro mundo dentro do próprio mundo, e as pessoas se revelavam para nós através dos olhares de mais de três segundos, e nós ouvimos um morador de rua indignar-se sobre o trabalho escravo que ele teria feito quando trabalhava no Outback dos Estados Unidos, como lavador de pratos.

O evento atrasa. Tenho agora um mini garfo de plástico nas mãos enquanto eu observo uma gama considerável de mulheres. Mulheres e seus trejeitos. Mulheres e seus cabelos brancos combinando com seus dentes brancos. Mulheres negras em companhia de outras mulheres negras. E apenas uma criança. Cinco homens. Mulheres ansiosas a esperar no hall para poder ouvir a fala de outras mulheres.

Esmeralda Ortiz rasga o verbo com suas vivências e suas questões particulares, nunca tinha avistado antes tanta cor em alguém que desabrochou uma história tão crua e cinza. Relatos de estrupo, anos entrando e saindo de fundações casa, o uso diário de drogas para espantar o frio, a fome, a desesperança, a solidão.
Ortiz teve seu resgate, teve sua ponte para que pudesse caminhar por caminhos antes desabitados. Formou-se em jornalismo, gravou cd, escreveu livros, trabalhou em emissoras televisivas famosas, conheceu um outro universo. E eu ali observando aquela mulher ser grande, ser forte, ser resistente. Tudo se remetia a mim de certa forma e eu podia sentir em mim mais dois goles de esperança para um futuro incerto.

Mel, leoa-voraz-poética. Recitando sua poesia a respeito das questões humanas, das relações de troca, do poder de nós sobre nós mesmos. Tudo aquilo me atinge em cheio. Todo o medo da fala, da não aceitação, do auto sabotar, da descrença, da obrigação da não autossuficiência. E ali também era eu, ali creio éramos um pouco de todas nós mulheres.

Laerte, crua, prática, fácil, armada e leve. Quando Laerte reconhece os privilégios que teve durante a vida por ter crescido em uma classe abastada, por ter tido acesso a cultura, lazer, educação, acesso a informação, e como todo esse pacote possibilitou a ela ser o que é, e reconhecer o patamar que chegou, porém, sem deixar de citar que todos esses privilégios deveriam ser igualitários para todos os seres e que a cada nova chance de alguém se transformar através da arte é um acréscimo a mais de vida.

Espaço de fala. Questões de gênero. O movimento feminista. A arte num âmbito geral. Literatura e o modo de sobrevivência em se tornar um autor independente. Tudo falado de uma forma poética e ácida, sem papas nem asas.

Dou meus últimos goles na vodka. A chuva cai apenas do outro lado da rua. Mais dois tragos. Lanche em dobro no Subway.

Um tiro certo no dia. Feminismo e mulheres cruas para iniciar o ciclo da lua cheia que desponta sobre minha cabeça.

2 comentários sobre “No calendário: 01 de março de 2018

  1. Puxa…
    É preciso mais disso. É preciso mais disso em todo o lado.
    E quanto mais disso acontece, mais as múmias que ainda mandam e desmandam tentam amordaçar todo mundo…
    Tempos tristes e divinos esse que vivemos…

    Curtido por 1 pessoa

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