PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | MINHAS MANHÃS

Não tenho uma rotina mercadológica. Não acordo ao som do galo e pego transporte público lotado. Não me sento a mesa e degusto um café da manhã farto. Não celebro os raios de sol e digo bom dia ao novo dia que se aconchega. Eu apenas perambulo no quadrado do meu: quarto-espaço-criativo, tomo meu próprio café da manhã a base de álcool, leio meus livros aleatoriamente e aprecio um pouco da humanidade da sacada.

Devo confessar que tenho sérios problemas com as manhãs… Vez ou outra, acordo odiosa do mundo, vez ou outra, acordo pronta para vencer a maratona de minha própria vida.

Pense… Agora neste exato momento observo telhados de tijolos laranjas sustentados por paredes brancas e uma ou outra parede colorida. Observo os prédios crescerem em volta de um bairro já antigo. Ouço os motores a todo gás ultrapassarem a própria barreira do som. A coleira do gato anuncia que o mesmo brota em minhas costas. Da vodka de domingo, me resta menos de um gole. São 10:50 da manhã. Eu não tenho um único centavo em meus bolsos. Faz sol. Não almoço a dois dias. Hoje é um dia lotado de afazeres. Olho para meu lado direito e penso em qual seria a resposta para a questão: Conjunto de sintomas e infecções causado pelo HIV ?

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A algumas horas atrás eu tinha uma mulher deitada nos meus lençóis acariciando o que resta de minha sanidade. Agora ela se foi. Folheio um livro de Eça de Queiroz. Me deixo tomar pelo tédio. Vou me espreguiçando até os músculos dizerem: deixem-nos em paz.

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Me refresco com o néctar das manhãs. Um pouco de vodka de frutas vermelhas totalmente sem gelo. Releio alguns textos de outros autores publicados na editora Scenarium Plural. Tento achar alguma coisa que me faça transpassar minha própria inexistência e me soterrar em linhas que me escalpele a derme.

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Observo sempre seminua, os pés que correm-param-estacionam. Tomo alguns goles gelados de cerveja. Sabe, odeio essa rede protetora contida na varanda dos prédios. Isso me impede de colocar os olhos para fora e absorver as minuciosas peripécias da humanidade. Gosto de acompanhar os trejeitos dos moradores de rua que transitam pelo meu bairro, sempre me ensinam muito mais coisa do que a faculdade de Serviço Social me proporciona.

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Haaa, sim! Vídeo game. Depois de livros, álcool e mulheres, com certeza os jogos me apaixonam por completo. Faço uso deles pelas manhãs, às vezes até uma tarde completa. Em frente a tão famigerada tela, me pego a pensar em passados de mais de dez anos atrás, reviso a minha própria vida e me questiono aonde foi que me perdi no vão entre o trem e a plataforma? Nunca sei a droga da resposta. Fico então ali, matando um pouco das manhãs de sol antes que um dia elas me matem por completo.

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Ainda é cedo demais para começar a viver. Me enfio então novamente nos lençóis cobertos de cabelos que não são meus. O relógio marca 11:00 em ponto. Não há fome para ser saciada. Não há pretensões com relação a vida. Preciso apenas das palavras que me tornam quente o bastante para jamais morrer frigida e fria. Lima Barreto, cai em minhas mãos magicamente. O mundo lá fora já completou um novo ciclo. Ainda não consegui me desprender de minha própria cama.

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Teclas para serem tocadas por mãos iniciantes. Notas para serem dedilhadas por dedos que não seguem rotinas mercantis. Dó-Ré-Mí-Fá-Sol-Lá-Si-Dó…


PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | MINHAS MANHÃS

EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018

Participam deste projeto: Lunna GuedesMariana GouveiaObdúlio Nunes Ortega

9 comentários em “PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | MINHAS MANHÃS

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    1. Yearbox, obrigado pelo gentil comentário. A gente passa o pouco que a gente tem para o mundo e espera que esse nosso pouco alcance voos grandes e voe para longe.

      Apareça por aqui mais vezes sempre que seu tempo lhe permitir.

      Tenha um ótimo dia!

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  1. eu quase ouvi a canção. Mergulhei em cada canto de sua manhã e suspirei. A palavra que lateja em minhas/tuas palavras é intensidade.
    Assim você chega a mim em uma noite com riscos de tempestade.
    Uau, mulher!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. O que dizer? Quase todos os dias eu odeio pessoas, o mundo… as coisas nos seus devidos lugares e quando alguém grita lá fora ‘bom dia’ eu respiro fundo e me afundo entre os lençóis. Acordar? Quero dormir a minha vida inteira… acordar com o crepúsculo e me afogar em goles pesados de café. rá

    Adorei o post!

    Curtido por 1 pessoa

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