A primeira onça a gente nunca esquece

Olhos sedentos pela gula da carne, enaltecem os glóbulos negros que em minha direção se esbarram. Posso sentir o ardor e o frio dançarem de forma conjunta por minha espinha dorsal. Engulo a seco o medo, desvio o olhar das garras afiadas agora expostas perante ao sol das 15:24h.

Sorrateiramente em passos quase invisíveis a fera caminha em direção ao projétil de mulher que outrora eu fui. Nossas bocas salivam algo úmido e pegajoso, as vozes ao fundo se fazem muda, as respirações descompassadas agora se habituam em transitar pelo caminho dos pulmões de forma quase mortal.

Num piscar, tenho bem diante de meu corpo uma fera colada bem próxima aos meus poros. Ela me olha compenetrada, seus glóbulos negros aumentam de tamanho em frações de segundos, suas narinas se inflam e se fecham sentindo o odor de minha pele negra. E então, nos permanecemos muda, inertes e com os estômagos a rugir de fome.

Sorrio um riso amarelo. A fera lambe o canto de minha boca. Meus pelos arrepiam-se. Um uivo soa distante como quem busca uma onça perdida por entre as feras selvagens.

Nos olhamos por mais dois segundos antes que ela me desse o sinal de partida e abandonasse o que tivemos nas frações de um tempo-espaço.

Senti vontade de beijá-la.

2 comentários sobre “A primeira onça a gente nunca esquece

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