Eu – Fragmentada

São 7h da manhã e o centro de São Paulo fervilha. Há corpos transitando com sacos pretos extremamente pesados empunhados em cima de carrinhos de mão verde. Observo crianças limparem os olhos recém abertos, enquanto mastigam o ar infestado de carne bovina de segunda qualidade. Camisetas da seleção brasileira são vendidas a preço de banana. Mulheres Islâmicas transitam com suas cabeças cobertas por lenços pretos com detalhes prateados em formato de borboleta. E eu, trago nos pulmões todo o medo de não voltar a ser aquela mesma pessoa que um dia fui, para casa.

Pessoas com ossos quebrados e bacias trituradas se amontoam dentro de uma ala hospitalar. O burburinho das dores correm soltas pelos corredores infestados de má infiltração e ferrugem saltando das cadeiras de rodas de plástico.

– Bom dia, senhora. É retorno?

– Não. Internação.

– Documento com foto, cartão do SUS, papel de agendamento.

Internação. Segunda vez ao mesmo antro. O mesmo tornozelo exposto. Fratura. Dor. Medo. Insegurança. Fragilidade.

– É só aguardar em algum canto que sua senha será chamada no painel.

O segurança era negro retinto. Vestia um terno como uniforme barato. Os sapatos nunca haviam sido engraxados. A camisa branca por debaixo do terno preto trazia uma mancha escura de café no lado direito um pouco acima do bolso, e a gola estava um tanto amassada. O crachá dizia: Jefersson da Silva – Porteiro.

As horas passavam carregadas. Corpos e mais corpos sem aglomeravam a cada segundo. O tempo de forma alguma era vencido. Tudo era tédio. Tédio, espera e medo em ascensão.

– Maria, o que está acontecendo com você?

Eu queria dizer que estava prestes a desistir de minha própria existência. Que há dias era acometida por uma insônia fudida. Que eu estava morrendo de medo de tudo dar errado e nunca mais voltar a andar.

– Então… faz uns dois anos que eu operei o tornozelo e recentemente ele vem me incomodando muito. A dor vem me matando aos poucos, sinto dificuldades pra andar, na hora que acordo o tornozelo fica extremamente duro, tenho que sair mancando pela casa, se fico sentada por muito tempo dói. Se fico muito tempo de pé dói. Tudo dói por tempo demais.

– Hum… Você está de jejum?

– Sim, desde às 17:00 da tarde de ontem.

– Então, você vai apresentar esses papéis na recepção, vai tirar um raio x, depois vai passar aqui de novo pra eu poder avaliar e depois internaremos você ainda hoje.

O relógio já marcava 09:33h. Eu estava desde às 8h da manhã de pé com o tornozelo em frangalhos ao lado da porta de emergência. Ás vezes me sentia meio tonta, meio nauseada, com tédio, com uma vontade eminente de fugir dali… Eu precisava me despir de mim mesma. Eu… apenas precisava.

Ponteiro por ponteiro dão voltas e acabam no mesmo lugar de origem e os minutos correm com apenas um pé. Posso ver pessoas com pinos saindo de seus braços enquanto seus olhos tentam não derramar as lágrimas que os denunciariam como não sendo suficientemente “homens”. Crianças com sono gritam nos colos maternos tentando esticar seus corpos infantis com suas mães já um tanto velhas escorando-se em cadeiras de plástico com os assentos infestados de casca de pão dormido. Um homem residente da zona leste, mais especificamente, Cidade Tiradentes, explica para seus dois filhos com idades entre 7 e 10 anos: “Como descobrir que uma mulher esta mentindo quando goza”.

– Alergia a algum medicamento?

– Não.

– Bebe?

– Sempre.

– Fuma?

– Não.

Precisei mentir. Sabe deus que tipo de medicamento iriam inserir na anestesia. Não tive coragem de dizer que fumava maconha.

“Segundo andar. Primeiro corredor à direita”.

Senhoras idosas com soro pingando em suas veias caquéticas. Gritos de dor inundando os quartos escuros e corredores com paredes brancas com listras verdes. O coração pulsa na velocidade da luz. O coração pulsa na velocidade da luz. O coração pulsa na velocidade da luz. O útero… pinga em chamas.

– Tira toda a roupa, tudo, até as intimas… Coloca essa camisola com a parte aberta para trás. Hoje mesmo você vai ser operada. Relaxa, se deus quiser, tudo vai dar certo.

” Porra! Foda-se a vontade de Deus caralho, é meu maldito tornozelo… Eles vão abrir de novo essa merda exatamente no mesmo lugar, vão tirar esse caralho dessa placa e essas porras de parafuso. O que a porra da vontade de Deus tem a ver  com tudo isso? Se depender dele eu que me foda né? Deus… Deus… Deus… Maldito Deus e suas vontades que nada me acalmam”. Pensei comigo mesma numa fração de segundos, mas nada disse”.

Cinco parafusos. Uma calefação. Seringas fechadas. Maquina de batimentos cardíacos. Remédio anestésico. Avental sujo. Luvas descartáveis. Enfermeira negra. Cirurgião homem. Assistente de cirurgião mulher. Anestesista homem. Faxineira mulher. Sangue no chão. Pressão 11/7. Frio. Cobertor barato. Fralda geriátrica suja. Anestesia na veia. Batimentos cardíacos lentos. Estagiários de enfermagem homossexuais. Tornozelo com uma placa e cinco pinos retirados. Frio, muito frio. Pontos. Sangue. Dormência total nas duas pernas. Coração amedrontado. Insegurança. Sem movimento algum da cintura para baixo.

Deus minha filha, Deus. Era o que eu mais ouvia na minha estadia hospitalar.

Hoje fazem 5 dias desde que eu voltei para casa. A recomendação médica foi de que eu não pisasse no chão e ficasse com o pé pra cima no mínimo uma semana. Dipirona e Codex caso a dor fosse muito intensa.

Segunda-feira. Três latas de Skol, dois copos de caipirinha de limão, porta do quarto finalizada com recortes de revista, fotografia pronta, namorada dormindo em plena 14:37 em ponto da tarde, pontos cirúrgicos secos, sol, pés ao chão.

Nada como acordar numa manhã de céu azul sem ter que mancar pela casa até chegar ao banheiro pra mijar um mijo laranja com ferrugem hospitalar.

10 comentários sobre “Eu – Fragmentada

  1. Me senti assistindo a um filme! Sua escrita é sempre tão excelente!
    Perceber cada detalhe do dia, cada crítica velada e, ainda assim, estampada aos nossos olhos, é uma coisa que sai como fogo nos teus textos! Parabéns, e melhoras! ^^

    Curtido por 1 pessoa

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