O QUE EU ANDO LENDO?

CONTO
substantivo masculino
LITERATURA
narrativa breve e concisa, contendo um só conflito, uma única ação (com espaço ger. limitado a um ambiente), unidade de tempo, e número restrito de personagens.
Semana passada eu estava na pegada mais poética e bem menininha de 15 anos apaixonada e hoje a pegada é diferente. Hoje eu finalizei: Contos mais que mínimos de Heloisa Seixas. E pasmem… não são contos como estamos acostumados a encontrar por aí, são na verdade CONTOS MINÚSCULOS.

Em tempos de Twitter, em que se tem um espaço de até 140 caracteres para escrever, esses Contos mais que mínimos caem como uma luva para quem ainda pensa que tamanho é documento.

Pensa num livrinho rapidinho e gostosinho de se ler. Eu que pouco me aventuro na escrita de contos me deparei com trechos mínimos e narrativas diretas e certeiras. Os temas são diversos e muito bem bolados… Ainda estou pensando aqui comigo como ela conseguiu escrever tão bem usando tão pouco? Eu até tentei depois de finalizar o livro esta manhã escrever um conto pequenininho que nem os dela, mas é tão difícil, eu sempre acabo escrevendo coisas demais. Talvez porque eu sinta demais, talvez porque eu observe demais, ou quem sabe… Porque eu sempre tenho coisas demais para dizer sobre as cenas do cotidiano que ninguém observa.

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Livro: Contos mais que mínimos

A marca da solidão

Deitado de bruços, sobre as pedras quentes do chão de paralelepípedos, o menino espia. tem os braços dobrados e a testa pousada sobre eles, se rosto formando uma tenda de penumbra na tarde quente.

Observa as ranhuras entre uma pedra e outra. Há, dentro de cada uma delas, um diminuto caminho de terra, com pedrinhas e tufos minúsculos de musgos, formando pequenas plantas, ínfimos bonsais só visíveis aos olhos de quem é capaz de parar de viver para, apenas, ver.

Quando se tem a marca da solidão na alma, o mundo cabe numa fresta.


O banho noturno

Caminha pelo corredor tateando as paredes. Sem janelas, o corredor é mais escuro do que o resto do apartamento. Mas logo ela se vê diante da porta do banheiro, onde é grande a luminosidade que vem da rua.

Através do vidro canelado, a noite se filtra, leitosa, e ela pode distinguir todos os contornos com exatidão. Até mesmo sua imagem, na prata do espelho. Na penumbra, abre o chuveiro e recebe no corpo o jato gelado, buscando no banho noturno o fim daquela febre que a consome. A febre de uma lembrança – de um tempo em que corpos ardentes faziam a água ferver.


Uma noite de liberdade

Minha avó tinha um canário belga. Vivia numa gaiola de arame dourado, as garrinhas envolvendo a madeira do poleiro, os olhos assustados. Um dia, no sítio, ao abrir a portinhola para trocar-lhe a água, minha avó se distraiu e o passarinho escapou. Foi um desgosto. Até o anoitecer, ela ficou do lado de fora, procurando o canário – mas em vão. No dia seguinte, bem cedo, minha avó abriu a gaiola e limpou tudo. Pôs comida nova, trocou a água e esperou. Para nossa surpresa, o passarinho voltou. Entrou com gosto em sua prisão dourada. A liberdade é, às vezes, irmã do terror.

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Página 36: Tormenta na praia 

Vocês também já leram esse estilo diferente de contos? Contos curtinhos e mínimos?

Diz aí, o que vocês andam lendo recentemente?

9 comentários sobre “O QUE EU ANDO LENDO?

  1. Quando se tem a marca da solidão na alma, o mundo cabe numa fresta…. separei este trecho…e confesso-lhe que esta frase é quase uma obra inteira de tamanha profundidade…quanta à leitura…sempre me surpreendi com Clarice Lispector: vai conseguir se concisa assim…na fresta que abre-se para a alma…

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  2. Mitologia Nórdica, Neil Gaiman, mas como o exemplar é em inglês, significa que vou entender metade e levar o dobro do tempo para terminar… Gostei dos contos, especialmente “Quando se tem a marca da solidão na alma, o mundo cabe numa fresta.”

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  3. Estou lendo muita coisa, pois resolvi além de tudo escrever um ensaio de escrita, mas adotei um rodízio de livros, que me permite ler de folha em folha, de raiz em raiz, até mesmo Ilíada, e por vezes corro olhos, em leitura de uma hora para um flerte com uma obra, por acaso, quem sabe ela me namore. Mas, sem tempo, vou esperando chegar meu livro, lançar, buscando quem o resenhe, com animação, ao mesmo tempo o desespero das revelações, dos olhares estranhos de quem sabe algum parente, talvez nem leiam, quem sabe dela? Acho que ela tem medo. Alguém que tenha curiosidade, que imagine o meu mundo de desenhos que ruiu , mas que sei lá, em algum instante o vapor se condensou numa folha de papel, discretamente, imperceptível, furtiva dos traumas, e tentou trêmula figurar traços dos lápis que reafirmaram as palavras. Abraços cordiais! Venha ler.

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