Varrendo os pretos para debaixo da calçada

O sol se mescla em meio a nuvens de chuva. Caminho apática e com o útero em dores pelas calçadas que há anos meus pés tanto percorrem. A vida continua frenética e as pessoas bordam um zigue-zague de forma proporcional.

Duas motos, dois homens brancos de farda, um jovem negro. Ainda era dia, 15:47 em ponto, quando o cano do revólver apalpou bem mais que os bolsos, alisou também o peito, acariciou também a face… E eu via as pessoas seguindo com suas vidas, apenas atravessando a calçada do enquadro ao preto e olhando, e se desviando, cada vez mais se acostumando, alguns até vibrando e eu ali de mãos atadas carregando apenas um livro de elaboração de projeto, tcc, dissertação e tese. Rapaz, como a vida me entristece, me envelhece, mas ao menos me permite escrever sobre as coisas que nunca encontramos numa “tese”.

Sentei para pensar e escrever algumas poucas palavras numa praça que fica situada na entrada de uma favela. Havia crianças se balançando nos equipamentos para ginástica. Havia jovens em suas bikes, em grupos de três ou quatro, dialogando e fumando maconha. Havia latas de lixo por toda a praça, penduradas corretamente e novinhas em folha. O mais engraçado é que a três meses atrás quando eu vivia contatando a subprefeitura do meu bairro para colocar estas mesmas lixeiras por aqui, para que a qualidade de vida e a questão habitacional e recreativa das pessoas que residem na favela ao redor da praça mudasse, nada foi feito.

Estamos em agosto, há apenas dois meses das eleições presidenciais. As ruas são varridas, os pretos são presos e o lixo é colocado no seu devido lugar.

As pessoas se acostumam e seguem apenas seguindo suas vidas. Bom, eu não!

 

 

8 comentários sobre “Varrendo os pretos para debaixo da calçada

  1. Texto sensacional Maria Vitória, me identifico com cada palavra. Também sou um negro que mora na periferia e sou alvo deste racismo policial deste esquecimento das políticas públicas. Você traduziu tudo o que vivoou vivi como ninguém. Desculpe, melhor dizendo você não traduziu, você relatou porque sei que faz parte da sua realidade também. Adorei a frase : “como a vida me entristece, me envelhece, mas ao menos me permite escrever sobre as coisas que nunca encontramos numa “tese”. Por isso sou cada vez mais seu fã.

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    1. Gratidão pelas palavras meu mano. A vida é foda e pra quem é preto o chicote sempre estrala.

      Deixa eu lhe perguntar… Por um acaso você não teria interesse em escrever sobre como é ser negro e as consequências disso te moldaram? Eu postaria aqui no blog para que outros tantos possam ler e identificar-se!

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  2. Quando falamos ou escrevemos sobre as favelas brasileiras, estamos condicionados a saber que é sinônimo de extrema pobreza. Você descreve uma realidade que dificilmente interessa aos governantes porque eles estão imersos nas eleições. Com o problema de Lula no tatame, mais esquecimento.

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