Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

Escritores-Leitores: O que a vida fez com vocês?

Ao me deparar com os trabalhos recebidos no decorrer da semana passada, pude ler as alegrias e as perturbações que a vida fez com cada ser em particular. Uns expressam suas histórias através de poesia outros em vorazes crônicas. Em cada linha é possível observar a particularidade e a vivência de cada um.

Para iniciar este desafio, temos a observação minimalista e certeira do Junio Silva. O autor nos trás a história de Chibata e nos conta o que a vida fez com ele…

Junio Silva – Chibata e a boneca de brinquedo

O homem de cabelos brancos chegou no balcão do bar com um pequeno pote plástico de maionese. Enquanto esperava o dono do estabelecimento perceber a sua presença ali, trocamos um olhar por alguns instantes. O dele aparentava cansaço, o meu curiosidade em saber o que significava aquele vidro na sua mão.

– Opa rapaz! Quantas doses será que cabem aqui? – perguntou enquanto abria a tampa.

– Eu acho que não cabem nem duas, mas você quer testar? – respondeu o dono do buteco.

Observava aquela cena encostado no balcão, tentando saber onde chegaria. Caberia ou transbordaria? Não lembro o que aconteceu, o que me recordo é que aquela noite foi a primeira vez que eu vi aquele senhor manco, de cabelos grisalhos e lisos, com roupas desleixadas e um boné que trazia o nome de uma loja de material de construção, apelidado de Chibata.

No começo ele ficou na retaguarda. Nas noites durante a semana, geralmente dias parados, passava no buteco depois do trabalho e por lá só estavam Chibata e o dono do estabelecimento conversando ou simplesmente olhando para a rua. Ainda assim trocava poucas palavras comigo.

Havia uma desconfiança no olhar sereno do senhor que gostava de tomar pinga com pele de porco. A voz era baixa e mansa, como a de uma criança tímida. A risada saia reprimida. O olhar nunca cruzava diretamente o do outro.

Morava em um sobrado de três cômodos ao lado do bar. Tinha o costume de sempre dar uma passada no bar quando vinha do trabalho. Era nítido a decepção em seu olhar, quando o avistávamos subindo a rua mancando com sua perna direita menor que a esquerda, e assim que percebia lá dentro alguém jogava sinuca ou conversava com alguém no balcão. Passava reto e ia para casa.

Por algum motivo, até então desconhecido, Chibata não gostava de se enturmar. Lembrava, fisicamente, até aqueles velhos budistas ou escritores, que buscam o isolamento.

Mas isso nada tinha a ver com ele. Era apenas um homem comum, desses que andam por ai sem nenhum glamour, grandiosidade ou estilo. Era só mais uma pessoa que ocupa um espaço no mundo por algum motivo.

O homem de personalidade fechada e introvertida se mostrou outra totalmente diferente depois de certo tempo. Sempre nos cruzávamos pelas cadeiras de plástico em noites quentes e frias, sem movimento, do meio de semana e batíamos um papo.

O velho costumava dar doces e salgados para crianças que faziam aulas de karatê ao lado do bar. Às vezes já deixava tudo pago com o dono do bar, caso seus amiguinhos, como os chamava, passassem e ele não estar por lá. Naturalmente nos conhecendo com o passar do tempo. Assim como eu pude observar isso, ele também me observou, mesmo com seu jeito calado.

– Tá vindo do trabalho? – disse ele ao me ver.

– Tô sim. Tudo em cima por aqui? – respondi.

A partir de um ponto talvez a confiança tenha surgido e começamos a conversar. Era difícil entender algumas coisas que ele falava quando exagerava no destilado. Se mostrou um homem que tinha muito para dizer e perguntar.

– Você é jornalista né? Mas é aqueles de televisão? – perguntava curioso.

– Essa sua camisa é muito legal, parece aquelas de surfista né? Quando eu era menino novo eu tinha uma igual essa. Gostava dela – se referia à minha camisa.

Quando o via na rua o olhar fechado, silencioso e baixo dava lugar à um cumprimento caloroso. Por algum motivo, não sei qual, Chibata estava diferente.

Certo dia, durante uma conversa sobre motos, uma revelação.

– Sabia que eu tenho uma moto?

– Tem nada. Você não consegue nem andar direito, quem dirá pilotar uma moto!! – retrucou o dono do bar, rindo.

– Eu vou mostrar pra vocês!!! – respondeu, com um sorriso no rosto.

Ao entrar em seu barraco tudo que se via era um amontoado de coisas. Quadros dos anos 80, xícaras de porcelana, sacolas pela mesa, uma pintura do Ayrton Senna na parede, e a moto, uma titan anos 90, estacionada no meio da pequena sala. Ainda funcionava, apesar de toda poeira acumulada e do tempo parada. Acelerou a moto com orgulho e o barulho tomou conta do ambiente inteiro

Porém o que mais me impressionou não foi uma pessoa na condição dele ter uma moto, pilotar, ou a bagunça que era seu lar, mas sim uma boneca de brinquedo que estava sentada de frente para a televisão ligada.

– Eu achei ela na rua e trouxe pra cá. Achei bonita. Tava jogada no canto de uma lixeira acredita? Peguei e coloquei ai no sofá, isso já tem um tempo. É como se fosse uma companhia minha – respondeu quando perguntado o por quê daquela boneca infantil sentada ali.

Ali entendi.

Não conhecia de muita coisa sobre o velho Chibata. Sabia que não tinha mulher, morava sozinho, nunca falava sobre qualquer parente que seja, e se intimidava e fechava com pessoas desconhecidas.

Desconfiava ser um homem sozinho. Só não imaginava o tamanho dessa solidão e seus efeitos.

Um homem durante anos sozinho pode se esquecer como é conviver com outras pessoas. Se fecha, anda olhando para o chão, cala-se, desconfia, tenta se esconder, mesmo que tudo que quer é fazer ao contrário.

E na ausência, acaba transformando até uma simples boneca velha, com roupas sujas e rosto com marcas de caneta, em uma companhia. Por vontade própria, desejo ou destino.


BIOGRAFIA: “Junio, aspirante a jornalista, busco histórias onde ninguém vê”

BLOG – INSTAGRAM


 

As inscrições para participar do Desafio Literário ainda estão abertas, restam apenas 4 vagasSe você tem alguma coisa a dizer a respeito do que a vida fez com você, envie o seu trabalho e concorra as últimas vagas no top 10 autores. Toda dia um autor diferente é divulgado aqui no blog e o próximo pode ser você. Então, partiu exercitar a escrita criativa!

3 comentários sobre “Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

  1. Quão interessante é dar espaço a escritores que querem se tornar conhecidos e ter um talento inato. Uma iniciativa que merece reconhecimento especial. Apenas sua sensibilidade humana pode conseguir isso. A história da boneca é uma evidência irrefutável de que escritores de alta qualidade participam. Bom para você e parabéns.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Macalder, obrigada pelos elogios referente a visibilidade aos novos autores. É muito bacana ver a interação de escritores e ler textos com tanta qualidade!

      Obrigada por sempre ler essa iniciativa e comentar sempre em meu blog.

      Tenha um ótimo dia

      Curtido por 2 pessoas

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