Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

Todos os entraves da vida se misturam em nossos sonhos e nas nossas expectativas. Quando crianças somos condicionadas a esperar do futuro sempre o melhor e o mais colorido possível do progresso. Mas aí, nós crescemos e descobrimos que mesmo com o sol batendo nos vitrais de nossas janelas, tudo o que sempre desejamos nunca sai da maneira como a gente quer. Então a vida bate feio em nosso lombo e nos castiga, mas quer saber? Isso é resistência!

Hoje vocês podem acompanhar a trajetória de vida da autora, Ana Claudia Marques e refletir sobre as coisas que a vida faz com a gente. Fere, arde, não é a morte mas vale como uma puta experiência. Uma crônica que deixa tão visível os passos e os sentimentos adquiridos ao longo de vinte e tantos anos. 

Ana Claudia Marques – O que a vida fez de mim?

Às vezes me perguntava, com meus 20 e poucos anos: o que a vida fez de mim?

Totalmente repleta de desconhecimento de quem eu era ou o que deveria ser, desconsiderei o que a vida me dera de nascença: dons de sensibilidade vital, expressos em cada linha escrita, em cada traço em giz pastel, em cada nota tocada e escrita numa pauta.

Pensava que todo mundo fazia igual algumas coisas, e outras, bem… outras só gente muito especial faria. Aquelas que todos faziam igual, eu não precisava mostrar ao mundo, e as que só gente especial fazia, eu não teria como me igualar.

Achava que a vida era como uma correnteza que levaria meu barco-corpo-ações-decisões. Achava mesmo que a vida me construiria, igual falava minha professora na faculdade: “o homem transforma a práxis, e a práxis transforma o homem”.

Eu transformava a vida, e a vida me transformava. Mas sentia que meu barco não tinha leme, nem remo, não. O rio-vida que me transformava. Que ação um barquinho como eu teria numa Vida tão grande?

Pois que aos 20 e poucos anos, quando respondia “o que a vida fez de mim”, era para afirmar que fui entrando por tudo quanto é porta que ia se abrindo: principalmente se quem abrisse fosse pai, mãe, professor, gente mais importante e sabida que eu, tão ignorante na minha vivência.

Por certo cuidar dos outros, de suas dores e loucuras, era o que de melhor eu poderia fazer. Para que botar a perder meus dias, construindo frases, perfis de carvão no canson, ou acordes no velho piano. Então a vida fez de mim o que eu deixei: amassei corpos com tecnologia oriental, drenei e modelei com tecnologia alemã, cuidava de mentes e espíritos desarranjados com eficácia inglesa, e enfiava agulhas em meridianos chineses.

Lá pelos 30 e poucos anos, doente e quase indo ver flor pela raiz, perguntei de novo: o que a vida fez de mim?

Olhei para meu redor, e vi a casa cheia de brinquedos, a agenda cheia de clientes, e meus sonhos estocados num canto do grande sobrado: um piano como aparador de bolsa; a caixa de giz pastel escondida em alguma gaveta bolorenta. E cadernos e mais cadernos de poemas guardados como diários, onde a única leitora era eu.

A vida me dera tudo o que muita gente queria: família bonita, agenda cheia, carro novo, eficiência em várias tecnologias, aprovadas pelos clientes. E me deu também um corpo cheio de dor e inflamado, gritando para ser escutado.

O rio da vida deu uma parada em alguma curva fechada, e emborcou meu barco, para ver o que eu faria agora. Ia navegar de cabeça para baixo? Me afundar até o leito do rio, virar refúgio de pitú e peixinho? Ou iria tomar uma atitude?

Desta vez, não tive coragem de responder à pergunta: “o que é que a vida fez de mim”? senti que ela estava me provocando, me dando uma outra chance de navegar naquele rio. Comecei a olhar para a vida, e perguntar: “vida, o que tu quer de mim”?

E, pois, num sonho, um dia a vida me respondeu. Derrubou minha casa, num avassalador terremoto. No meio dos escombros, teimei em ficar, e salvar aquilo que eu precisaria para continuar.

No sonho, carreguei como podia os velhos cadernos de poesia, composições e desenhos. Se eu morresse embaixo dos escombros, morreria com o que me definia.

E então acordei. O que a vida fez de mim não era mais uma pergunta com sentido. Eu era barco, com leme, remos, motor. Havia escolhido guardar tudo e ir à deriva. A vida, esta não interferia no que a gente fazia com nosso barco.

A vida, liberdade extrema, me desafiou naquele sonho. Tu morre mesmo por isso tudo aí? Me mostre… e fez cara de quem duvidava.

Contestada em toda a minha verdade, passei mais de década me despindo de tecnologias, sabedorias e diplomas que enfeitaram minhas paredes e minhas declarações pessoais. Fiquei buscando comprovação de quem eu era, o que eu fazia, e o que vibrava em mim um diapasão mais que afinado.

Hoje, quando me pergunto: “o que a vida fez de mim”?

Respondo: me deu liberdade de girar os ponteiros do tempo, me reencontrar com a menina que engarranchava palavras no caderno, vigiava rostos e os punha no papel, e cantava com os discos na vitrola.

A vida fez de mim uma buscadora, desafiadora das liberdades falsas. Fez de mim um ser com olhos abertos, escolhendo onde viro o leme, onde uso o remo, onde ligo o motor do meu barco-corpo, neste vasto rio-vida. A vida fez de mim uma navegante que sabe usar a bússola do coração e o sextante da razão para traçar caminhos.


BIOGRAFIA: Paulistana, nascida em 12 de fevereiro de 1970, escreve desde os nove anos de idade. Sua estreia na literatura foi em 2012, com o livro de poesia O Poente, o Poético e o Perdido.

De lá para cá, coleciona mais alguns títulos, entre livros infantis (Bem-Te-Vitor), coletânea de contos (Chumbo Trocado e outras Histórias), poesia (Pele, Osso e um Pouco Mais), muitas coletâneas, alguns concursos literários, e inúmeros artigos como colunista, da Revista Plural (de 2013 a 2015) e da Revista Pense Mais (de 2015 até o momento).

Atualmente trabalha com redação de artigos e revisão de livros. Sua curiosidade a fez “especialista em assuntos aleatórios” – sabe de tudo um pouco, pois não para de estudar.

Como escritora, divulga seu trabalho no blog: www.anaclaudiamarques.wordpress.com

e como terapeuta (seu lado B), divulga seus artigos no blog: www.decifreasimesmo.wordpress.com


 

As inscrições para participar do Desafio Literário ainda estão abertas, restam apenas 4 vagasSe você tem alguma coisa a dizer a respeito do que a vida fez com você, envie o seu trabalho e concorra as últimas vagas no top 10 autores. Toda dia um autor diferente é divulgado aqui no blog e o próximo pode ser você. Então, partiu exercitar a escrita criativa!

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