Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

Depois que lancei esse Desafio Literário, me indago constantemente sobre as coisas que a vida andou aprontando comigo. Poxa vida, se eu parar para fazer a reflexiva, daria pra escrever um livro sobre as peripécias que essa existência marcou em minha pele.

Mas é isso, a gente sempre vai aprendendo de um jeito ou de outro. Por falar em aprender… A professora, Estefânia Barroso traça uma longa e próspera caminhada através destas linhas e desabrocha suavemente nos encalços desta bem articulada crônica. 

Estefânia Barroso – O que a vida fez de mim?

Nasci para ser uma pessoa doce e meiga. Estou certa deste facto. Fui um bebé calmo, um “come e dorme” que nunca deu grandes preocupações aos seus pais. Enquanto criança também penso que nunca dei grandes desassossegos. Passei pela infância e pela adolescência sem muitas revoltas, sem grandes crises, sem idade do armário. Quando muito passei pela “idade da gaveta”, numa adolescência menos conturbada que o habitual nos jovens mas perturbada ainda assim. A vida decorreu de um modo quase normal, somando à idade, os anos de escolaridade, num percurso sem altos e baixos. Percebi, com o decorrer dos anos e dos namoricos que a minha doçura e meiguice eram maiores para com os animais do que para com as pessoas mas ainda assim considero que era uma jovem adolescente simpática, crente no futuro, com um olhar sonhador e, sob uma capa por vezes rugosa e dura, uma menina doce com muito carinho para distribuir.

E, claro, porque os livros assim me ensinavam e os filmes assim me mostravam, sonhava com aquele amor maior que me fizesse a mulher mais feliz e realizada do mundo. Assumo que a visão cor-de-rosa nunca chegou ao ponto do querer o que sempre classifiquei de sonho pequeno-burguês (o casamento, o carro, a casa, os filhos, o cão) mas, nos meus vinte e poucos anos, sonhava em encontrar alguém que me preenchesse a 100%. E, porque com isso sonhava, acreditei que tinha encontrado essa alma gémea há uns anos e acreditei que a vida estava a ser doce e leve para mim. E o que aconteceu com esta minha crença? Como já devem esperar, desvaneceu-se. Com o tempo percebeu-se que aquela não seria uma relação para a eternidade, que aquela não era a minha alma gémea e que aquela pessoa não tinha o segredo da minha felicidade nas suas mãos.

Se me perguntassem na época o que a vida tinha feito de mim diria que ela me tinha tornado numa pessoa revoltada com ela (a dita vida), numa pessoa com momentos de amargura e com poucos sonhos.  Diria que me sentia defraudada e destilava mais fel que mel! Os livros e os filmes não me tinham mostrado a vida sob esse véu cinzento e escuro com poucos matizes de cor e alegria. Sentia que a vida me tinha arrancado os meus sonhos de menina e com eles tinha levado, simultaneamente, aquela doçura e meiguice que eu achava que tinha. E, acima de tudo, diria que a vida me tinha roubado uma certa alegria de viver que pensava ter antes, o que se notava no meu semblante carregado e nas rugas que se iam instalando no meu rosto.

Contudo, a questão não surgiu nessa época mas alguns anos depois. E por isso, a resposta nada tem a ver com aquilo que acima descrevi. A vida, ao trazer-me alguns problemas, alguns desaires e preocupações fez de mim uma pessoa independente que sabe bem o que quer, mas sobretudo, sabe o que não quer. Com os tombos e as mágoas que a vida me trouxe, ela provou-me que sou forte, que posso ser como aquelas árvores que se curvam sob o peso das tempestades mas que não quebram. A vida, ao não ser tão calma e harmoniosa como eu pensava que seria quando era adolescente mostrou-me que sou uma mulher com força e coragem para analisar o passado e aprender com ele, viver o presente sem medos e olhar para o futuro de uma forma mais realista, ainda que com uma pitada de sonhadora. A vida mostrou-me, no decorrer dos anos passados entre o estar só e o estar numa relação, que sei ser feliz sozinha. Os desgostos amorosos provaram-me que não preciso de alguém a meu lado a todo o custo para ser feliz. Por isso, a vida mostrou-me que estar com alguém é uma escolha e não uma necessidade. E sobre esse assunto a vida evidenciou de forma clara que os livros e os filmes nos mostram uma visão açucarada das relações.

Acima de tudo a vida ensinou-me que tudo passa, cedo ou tarde, desde que tenhamos a capacidade para sossegar e acalmar o coração. Mostrou-me que, deixando o espaço adequado, a alma irá sempre acreditar que e felicidade e o futuro se constroem passo a passo e que eles dependem apenas de nós.

Por fim, o que a vida me mostrou? Mostrou-me que tudo está nas minhas mãos e que cabe-me a mim lutar, todos os dias, pela vida que quero, pelos sentimentos que quero ter e pela pessoa que quero ser.

Posto isto, o que a vida fez de mim?

Fez de mim uma pessoa menos sonhadora e mais terra-à-terra, apesar de ainda conservar alguma da doçura e meiguice da infância. Fez de mim uma pessoa mais segura de si, apesar da idade trazer alterações no aspeto físico. Fez de mim uma pessoa mais divertida porque aprendi a aproveitar o hoje e o agora e a não pensar tanto no amanhã. Fez de mim uma pessoa com a certeza que ser feliz apenas depende dela. Fez de mim um ser que nem sempre se encaixa nas regras da sociedade porque jurou, depois daquele período mais escuro da sua vida, que seria sempre feliz. Por isso, a vida fez de mim uma mulher algo desafiadora, que nem sempre segue as leis da sociedade, porque segue a sua própria lei: a lei de procurar a felicidade a qualquer custo e de fazer a vida valer a pena, acima de tudo.


BIOGRAFIA:  Estefânia Barroso é professora e cronista nas horas vagas.

Gere o blog “Steff´World a Soma dos dias” – onde apresenta crônicas, contos e uma rubrica intitulada “Elas, as que fizeram a diferença”.

Gere ainda a página “Filosofias por aí”, presente no Facebook e Instagram.

BLOG – FACEBOOK


 

As inscrições para participar do Desafio Literário ainda estão abertas, restam apenas 3 vagasSe você tem alguma coisa a dizer a respeito do que a vida fez com você, envie o seu trabalho e concorra as últimas vagas no top 10 autores. Toda dia um autor diferente é divulgado aqui no blog e o próximo pode ser você. Então, partiu exercitar a escrita criativa!

4 comentários sobre “Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

  1. Com o dote de seu escritor, tenho certeza de que seria um ótimo livro. Sua experiência, como você diz, na sua pele, deve ser um assunto de primeira classe. A história da professora Estefania é muito interessante. Você vê que seu desafio está ganhando importância à medida que você recebe os escritos. Saudações

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