Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

Senhores, como as relações humanas são difíceis e frágeis. Quantas vezes não nos pegamos no decorrer da vida insatisfeitos ou traumatizados por algo que nos aconteceu quando crianças em nossos próprios lares? Quantas vezes odiamos as surras e as palavras de ódio bravejadas por nossos pais e que tais atitudes exerceram um poder enorme sobre nossos ombros e carregamos todo esse peso até as cadeiras de psicologia ou escondemos tudo pra dentro da gente até nossos últimos fios de esperança em solo fértil?

Nessas questões de relações parentais, o texto de Mayara Freire retrata um pouco do que muitos de nós passamos em nossa primeira e segunda infância e que às vezes nos marca para sempre ou com o tempo a gente aprende a lidar e evoluir.

 

Mayara Freire – Ratificação

Quando criança, depois de apanhar do meu pai – seja por ter feito algo ou não – ele esbravejava com raiva para que eu engolisse o choro. Nunca entendi, mas obedecia – bom, era melhor obedecer do que levar outra surra por cima da que ainda marcava meu corpo – As pernas ardiam e as lágrimas despencavam dos meus olhos, mas a boca fechada reprimia o berro natural de uma criança de seis anos que sente dor.

Somente ano passado – uns vinte anos depois – fui colher os frutos. Já na terapia de cabeça baixa relatei o fato e só então percebi o quanto isso me marcou. Senti vergonha por algo que não era culpa minha e senti dor por sentir vergonha por algo que não era culpa minha.

A vida – assim como meu pai – não foi gentil comigo em alguns aspectos. Por vezes também esbravejou para que eu engolisse o choro, o desejo, a vontade, a felicidade, a tristeza e afins. Aprendi a chorar baixo, a chorar pra dentro, a quase me afogar tal qual Alice, nas próprias lágrimas. Queria dizer que isso me deixou mais forte, porém até agora apenas me sinto em cacos.

Mas dizem que é assim que funciona não é? Tipo, tem que apanhar pra aprender. A vida ensina de forma ferrenha a ser forte, a suportar, a deixar ir, a pedir pra voltar. E nem sempre ela vai passar a mão em sua cabeça, tal ensinamento pode vir como um soco… Mas é pra te ensinar, pra te fazer forte! Você precisa ser forte! Ser fraco é vergonhoso! – a vida às vezes parece meu pai educando uma criança de baixa auto-estima e que tenta se manter viva mesmo que sua existência lhe cause angustia.

Queria dizer que a vida me ensinou a ser forte, mas tudo está reverberando dentro de mim ecoando fracasso e vergonha. Mas e a força interna? Onde está? Há um mar bravio controlado aqui dentro e a única coisa que sinto é um tipo de erosão fluvial destruindo tudo de forma lenta – pra doer um pouco mais. A vida só ratificou o que eu já sabia: Ninguém suporta o canto do teu choro.


BIOGRAFIA: Mayara Freire, 26 anos e nordestina. Escreve  textos em sua maioria para e entre mulheres, seja no campo erótico, na leveza de ver a vida acontecendo ou na necessidade de vomitar a própria existência.

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As inscrições para participar do Desafio Literário ainda estão abertas, restam apenas vagasSe você tem alguma coisa a dizer a respeito do que a vida fez com você, envie o seu trabalho e concorra as últimas vagas no top 10 autores. Toda dia um autor diferente é divulgado aqui no blog e o próximo pode ser você. Então, partiu exercitar a escrita criativa!

 

4 comentários sobre “Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

  1. Fico feliz em poder compartilhar ainda mais meu trabalho!
    Parabéns pelo projeto e por nos proporcionar experiencias tão distintas partindo todos de um mesmo ponto.

    Curtir

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