Maratone-se #3

Ontem eu citei que tinha uma grande inclinação a fotografar homens por ser mais fácil de conduzir um ensaio fotográfico. Pois bem, hoje eu quero citar o homem que atualmente meche com a minha cabeça, com minha audição e literalmente, com o meu coração.

QUEM É:

Gustavo Pereira, mais conhecido pelo nome artístico Djonga, é um rapper, escritor e compositor brasileiro. Considerado um dos nomes mais influentes do rap atual, Djonga chama a atenção por conta de sua lírica afiada e agressiva e de suas fortes críticas sociais nas letras. A ideia do rapper é mostrar que o hip-hop não é uma “música marginalizada”, como um dia foi considerado o samba.

 

TRECHO DA MÚSICA – OLHO DE TIGRE

[… Um boy branco, me pediu “High five”
Confundi com um “Heil, Hitler”
Quem tem minha cor é ladrão
Quem tem a cor de Eric Clapton é cleptomaníaco
Na hora do julgamento, Deus é preto e brasileiro
E pra salvar o país, Cristo é um ex-militar
Que acha que mulher reunida é puteiro
Machista tá osso, e até eu que sou cachorro não consigo mais roer
E esse castelo vai ruir, e eles são fracos vão chorar até se não doer
Não queremos ser o futuro, somos o presente
Na chamada a professora diz “Pantera Negra”
Eu respondo: presente
Morreu mais um no seu bairro, e você preocupado com a buceta branca
Gritando com a preta, sou eu quem te banca
Assustando ela sou, eu quem te espanca.. ]


 

BIOGRAFIA:

Djonga nasceu em Belo Horizonte, na Favela do Índio, e cresceu no bairro de São Lucas, Santa Efigênia. Sempre gostou de música e poesia, cresceu em uma família que ouvia muita música principalmente MPB. Sua inspiração veio do funk e do rap nacional, seus primeiros CDs foram do Racionais MCs e do Dogão. Além dos raps tinha os funks proibidões. Depois eu comecei a escutar uns rocks, Cazuza e Barão Vermelho, ai eu vi que queria escrever música.” Diz o Rapper. Djonga cursou História na Universidade Federal de Ouro Preto, e trancou o curso um semestre antes de sua conclusão. Começou a compor música em 2010 com apenas 16 anos.

 

TRECHO DA MÚSICA – JUNHO DE 94

[… Mas até quem eu não conheço quer sorrir o meu sorriso
Tive que ouvir que eu tava errado por falar pro ceis
Que seu povo me lembra Hitler
Carregam tradições escravocratas
E não aguentam ver um preto líder
Eu devolvi a autoestima pra minha gente
Isso que é ser hip-hop
Foda-se os gringo que você conhece
Diferencie trabalho de hobbie
Os irmão me ofereceram arma
Ofereci um fone
Cada um faz suas escolhas
Pra não passar fome …]


 

CARREIRA:

2012-2016: Corpo Fechado
Começou a carreira num sarau de poesia, chamado Sarau Vira-Lata. No começo, por volta de 2012, quando estava se formando no Ensino Médio, frequentava saraus apenas para ouvir. Foi neste momento que se interessou por fazer poesia, e aí tudo começou. Em seguida, o rapper Hot Apocalypse o convidou pra montar um grupo, e começou a frequentar o estúdio do Chuck, conhecido como Oculto Beats. Ele produziu a base e Djonga rimou por cima com uma poesia que havia escrito há muito tempo. Foi aí que gravou e lançou seu primeiro single: “Corpo Fechado.

2017: Heresia e O Menino queria ser Deus
Em 2017 o rapper lançou seu álbum de estreia chamado “Heresia”, atingindo aclamação de crítica e público. No álbum faz fortes críticas à sociedade e traz mensagens enfatizando o empoderamento negro.O álbum foi considerado o melhor do ano na lista da renomada Rolling Stones, e a música destaque, “O mundo é nosso”, com participação de BK, concorre ao prêmio RedBull de melhor faixa de 2017.O álbum Heresia ganhou a votação da Rolling Stones como melhor de 2017, o álbum esta em quase todas as lista de melhores discos brasileiros em 2017,inclusive entrou foi indicado para o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

2018:  “O Menino queria ser Deus”, que fala sobre sua vida pessoal, carreira e questões sociais e raciais. O álbum conta com 10 faixas e participações de rapper como Sant, Karol Conka e Hot, com produção executiva da Ceia Ent., produção de CoyoteBeats e mixagem e masterização de Arthur Luna. O álbum, em sua maioria foi gravado no estúdio Nebula Records.

 

TRECHO DA MÚSICA – CANÇÃO PRO MEU FILHO

[… Pagando de foda pra ela, por dentro sem fé
Fazendo conta com 400 conto
Dizendo que ia dar pra sustentar
Sua mãe chorando sem entender nada
A noite é longa, e a manhã faz o choro passar
Eu prometi que ia dar tudo certo
Mas só que a noite durou muito tempo
Talvez seja fácil isso tudo pra quem tem herença
Tipo que se for preso vão pagar fiança
Digo gente com casa própria, com empresa própria, com nome próprio
E traje apropriado
É, coisas da vida
Um dia cê vai entender isso tudo
Pensando bem, menor
Espero que você viva outro mundo …]


 

Quem me vê lendo livros intelectuais ou dando aula às quartas-feiras de manhã sobre, práticas em Serviço Social, nem imagina o que eu ando ouvindo. Sim, eu amo rap, sempre amei. Me lembro perfeitamente da época de ensino fundamental quando um dia eu achei uma fita, sim uma fita, perdida no meio de uns livros empoeirados, amarelados e comido pelas traças, embaixo de um livro de romance erótico que eu encontrei no quartinho que ficava nos fundos de minha antiga casa. Senhor, como eu rebobinei aquela fita de rap dos anos 90 com a caneta tantas e tantas vezes sem ao menos ter dimensão que um dia eu escreveria coisas iguais aquelas letras ou que um dia eu ia dar tanta importância ao fato de ser negra e morar no centro de 5 favelas diferentes, ou mesmo, o quanto eu ia sentir na pele todo santo dia o sangue do capitalismo-racista-opressor jorrar na minha cara sem antes avisar que atiraria em minha própria cabeça.

Sim, eu amo rap e suas letras que rasgam o verbo e expõem as moelas cruas e viscosas da humanidade. Todo santo dia eu ouço, Djonga e todo santo dia eu tenho ainda mais consciência de classe. Senhores, o rap não vai mudar o mundo. Minha escrita não vai mudar ninguém. Mas acreditem, quando o sol se expor bem lá no alto e pessoas olharem para ele sem seus óculos UV, uma música escrita por alguém negro e pobre mudará a sincronia do planeta.


maratone-se

3 comentários sobre “Maratone-se #3

  1. Eu nunca imagino o que as pessoas ouvem até porque certa vez alguém tirou os fones de meus ouvidos e ao coloca-los ficou indignada por saber que eu ouvia Sebastian Bach e seu belissimo Magnificat Amo música clássica. Ontem passei o dia a repetir o mesmo CD o dia todo e hoje é dia de Bocelli. Comecei cedo. Até Ave Maria já ouvi na voz dele.
    O que me incomoda nas pessoas é essa mania de rotular tudo. Eu não gosto de certos ritmos e pronto. Não me agrada. Não fala comigo. Não quer dizer que o mesmo vai acontecer a outra pessoa.
    Outro dia alguém me mostrou um sertanejo atual e fiquei com a droga do refrão na cabeça. Era uma droga. Mas nada falei. Apenas disse que não combinava com essa pessoa estranha que sou. Adivinha. Ouvi um discurso bobo sobre preconceito e afins. Mostrei a criatura o Noturno em mi bemol menor. Credo. Isso não é música. ok. vida que segue. rs

    Ps. Vou ouvir o rapaz depois, hoje não consigo desligar o Bocelli.

    bacio

    Curtido por 1 pessoa

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