Maratone-se #7

Aqui estamos nós no último dia da maratona de textos e eu percebi que funciono muito melhor quando tenho uma obrigação com a escrita. Sempre me ocorre de ficar dias, semanas e por muito azar, meses sem escrever um parágrafo se quer. Porém, sempre que acontece da Dona Lunna Guedes me lançar um desafio, isso é o suficiente para travar uma guerra espartana dentro de mim mesma e quando sento-me em frente a tela branca, é como se todo o poder do meu subconsciente viesse lindamente à tona.

Não tenho uma rotina para escrever. Não sou do tipo que só funciona em certos horários. Pode ser na madrugada em que os olhos não se pregam, pode ser voltando para casa sentada nos bancos das estações de metrô, pode ser enquanto observo às luzes artificiais da cidade da janela do nono andar, ou mesmo durante uma aula monótona e por incrível que pareça, até durante o sexo. Uma força maior me move e eu paro qualquer posição ou recepção ao gozo para correr em direção a algo que suporte minha mão pesada contornando linhas. 

Sem essa de padrões textuais. Eu só sei escrever o que eu vejo e principalmente o que eu sinto. Nunca, eu disse, NUNCA, escrevi uma virgula neste blog que não fosse real, que não fosse cuspido para fora de mim com uma força descomunal de mil mulheres, nem ao menos os diálogos, tudo foi minuciosamente observado, absorvido e esculpido no papel de uma forma mais clara que a água. Acho que tudo isso é o que me torna, estranhamente, toda essa coisa de virar do avesso a mim mesma na busca incessante de encontrar uma garota há anos perdida. Jamais aceitei os poemas que só falavam de amor. Jamais aceitei que a vida é feita de cores coloridas. Jamais aceitei que os sorrisos felizes representassem de fato uma felicidade. Jamais aceitei que a vida em que vivemos fosse a única possibilidade de alguma coisa.

Existe muito mais em mim do que minha própria pele. Eu não sou apenas uma mulher de vinte e sete anos, negra, lésbica, moradora da zona oeste, estudante de Serviço Social, fotógrafa nas horas ímpares, escritora nas horas pares, produtora de conteúdo em meio período, solitária, insegura, medrosa, por anos infiel, por um longo período alcoólatra, usuária de maconha, curiosa, inteligente, preguiçosa, organizada, tia, filha, irmã, amiga, amante, companheira, leitora, chorona, indecisa, carente, ríspida, despretensiosa, agnóstica, romântica e meticulosamente, estranha.

Seja o que for ou o que tiver de ser. Para onde a vida me jogar, espero que não seja tão dolorosa a queda, porque eu já tive ossos quebrados demais para ter tempo o suficiente para me recuperar de novo.


maratone-se

10 comentários sobre “Maratone-se #7

  1. Estou digitando com os pés porque estou usando as mãos pra aplaudir a beleza desse texto!

    Simplesmente maravilhoso! Incrível! Inspirador e vários outros adjetivos que não consigo achar pra descrever o que senti enquanto o lia!

    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Poxa vida mana, gratidão pelas palavras. Fico lisonjeada por tais elogios.

      Obrigada pela visita, sinta-se a vontade para voltar sempre que seu tempo lhe permitir.

      Tenha uma ótima semana!

      Curtir

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