Um outro corpo além do seu

Com quantos corpos nus vocês se deitaram até estralar seus próprios olhos para o mais longe que você pudesse alcançar?

Quantas vezes seus pensamentos atingiram nuvens imaginárias enquanto você tentava não sentir o suor de outra pele escorrendo em cima de lençóis baratos?

E os dentes? Quantas vezes você reparou nos defeitos dentários de alguém que sorria de forma maliciosa e ao mesmo tempo triste ao seu lado sobre paredes com tinta descascada?

E tijolos? Você já teve de contar os tijolos empilhados no canto de uma sala que serviam também de mesa, de armário, de sofá, de cama infestada de areia e vozes roucas masculinizadas?

Os pelos e a sudorese. Pelos molhados colados ao um corpo de pele não tão jovem. Pintas marrons espalhadas pelo pescoço e pelas costas. Verrugas no rosto. Verrugas no antebraço.

Já pararam pra ouvir o silêncio que a cidade faz toda vez que você se sente sozinha e completamente arrasada?

Já pararam pra ouvir o silêncio que enlouquece até o mais fiel dos sábios?

Sua própria respiração é muda.
Suas mãos estão pegajosas.
Sua língua está áspera.
Suas coxas estão trêmulas.
A vida como você um dia conheceu, já era.

Você se embrulha nas roupas que não mais te cabem. Você abre a porta de um desconhecido. Você caminha por ruas nunca antes habitadas. Você esqueceu o caminho de volta pra casa.

Você sabe como é suar a própria pele num inverno de – 10°?

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