Os livros que abandonei

O corpo se move em direção as fileiras menores e os olhos tateiam os títulos até que as retinas cocem. A língua tem que chamuscar alguma coisa, ou então, tem de salivar como um cão ao avistar uma tigela de sobras do almoço. Estaticamente, por milésimos de frações uma única e simples frase terá de ser convincente o suficiente para que eu não vá embora. Abandonos prévios antes que as páginas se acabem, antes que os personagens virem mártires, antes que meu esôfago se embrulhe em matéria pasteurizada e eu tenha de vomitar outra obra jamais iniciada. 

Abandonar livros é a obra mais divina que alguém poderia reproduzir. Acho que melhor do que ler um livro completo é abandoná-lo muito antes da metade só porque o livro é tão angustiantemente chato que a solidão das prateleiras, mesclada com a poeira fria é um viés bem pertinente. Vivi e vivo uma vida quase toda começando e nunca terminando coisas, livros não são diferente, livros são como pessoas que a gente conhece nos balcões da vida e a gente olha entre olhos enquanto empunha um copo de algo amargo por entre os lábios e entre os dentes e do outro lado do fundo do copo há alguém também te olhando. Na sua mente passa um singelo curta metragem e você se imagina besuntada em óleo corporal com vodka as quatro da manhã com aquela pessoa que você só consegue ver entre olhos e depois você ascende um cigarro mesmo sem fumar e, só depois do sexo desprotegido e rebelde, você inicia uma conversa de elevador, meio constrangedora, meio agoniante, meio obrigatória e, então você olha para as paredes descascadas e os lençóis cheios de manchas do tempo e dos corpos antepassados e você percebe que tudo aquilo não passa de uma obra literária que deve ser definitivamente, abandonada.

Já me perdi nas contas inúmeras de quantos livros já abandonei nessa vida. E tudo bem, pois cada livro a mais abandonado, outra potência textual como está é criada. Livros foram feitos para serem descartáveis ou memoráveis, nunca o inverso.


PROJETO MARATONE-SE DE OUTUBRO

maratone-se

14 comentários sobre “Os livros que abandonei

  1. Outro texto magistral! Parabéns pelo belo texto, muito interessante a forma como trabalha a relação entre livro e leitor. Concordo plenamente, a leitura é uma relação, como tal não é unilateral, se só um dos lados está saindo satisfeito, melhor terminar para evitar maiores aborrecimentos. Obrigado por este texto genial.

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  2. Eu acho que abandonar livros é o mesmo que abandonar um passo. Desistir e encarar que não deu certo, para que insistir? Fracassos fazem bem ao espirito e nos eleva a um novo nível. Gostei do post…

    bacio

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  3. ” livros são como pessoas que a gente conhece nos balcões da vida e a gente olha entre olhos enquanto empunha um copo de algo amargo por entre os lábios…”
    Muito real. Amei.

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