O voto em branco, as lágrimas e o Vinícius

É com imenso pesar e incredulidade que escrevo este texto. Trago aqui nestas breves linhas um coração partido politicamente, porém, um tanto quanto mais resistente.

As eleições presidenciáveis acabaram-se em fogos de artifícios e morte. Um garoto de oito anos é atingido por uma bala perdida em Ponta Grossa no Paraná durante a comemoração da vitória de Bolsonaro na noite de ontem. Um conhecido meu foi extremamente agredido enquanto saia da academia com uma camiseta vermelha, quatro homens o cercaram e o chamaram de viado comunista. Uma amiga minha me contou na manhã de ontem, que uma semana atrás ela teve que voltar para casa em choque e extremamente aterrorizada porque um homossexual que estava sentado ao seu lado no metrô foi ofendido sem motivo algum por três homens brancos, altos e fortes que se identificaram abertamente como sendo seguidores de Bolsonaro. Mas, segundo alguns muitos dizem, tudo isso não é nada, são apenas casos isolados e que devemos nos preocupar apenas com a corrupção do país.

Esse slogan “corrupção” foi uma ação direta e altamente eficaz para a vitória do candidato em questão. Todo o ódio, discriminação e repudia veio de brinde. Todos os atos de violência que foram protagonizadas durante essas eleições não foram estratégias políticas, foram apenas cordas invisíveis de marionetes sendo empunhadas por uma ideologia e uma estratégia política maior. Desde que mundo é mundo o ser humano é violento, homofóbico, racista, xenofóbico, misógino e etc… Porém, foi preciso que algumas poucas falas de efeito muito bem articuladas e planejadas dessem vazão a toda excentricidade dos homens e mulheres sociais. Pudemos nos deparar com nossos parentes, amigos, colegas de academia, trabalhadores, patrões, seguidores, escritores e mais um monte dos tantos que nos cercam nos desferindo direta e indiretamente repulsa a nossa existência. Quantas brigas através das mídias e fora dela foram geradas apenas por uma questão, “contradição ideológica”. A liberdade de sermos quem somos ou pensar do modo que pensamos e até mesmo apoiar o candidato que simpatizamos foi um divisor maior do que o de águas, foi um divisor de “vidas”.

Minha mãe votou em branco e quando eu me coloquei de braços cruzados e feição de ódio mesclado com medo em frente a tv após secar as incessantes lágrimas de minha namorada que chorava de forma torrencial de medo, tive que ouvir que eu não poderia levantar minha voz, que eu teria de baixar minha cabeça perante aos outros, que um monte de gente morre todo dia, gays e negros e que isso é absolutamente normal, e o melhor que eu tenho a fazer é aceitar que um dia eu não volte mais pra casa porque eu morri apenas por ser quem sou e por ter escolhido amar quem eu amo. Me senti com muito mais raiva, olhei para o lado e a mulher que eu escolhi amar, respeitar e “proteger” para sempre, estava tendo que ouvir minha mãe também dizer a ela que é normal, as coisas são como são e nada vai mudar. Por alguns segundos me calei, fui até a janela e fiquei observando o céu negro e solitário sendo ofuscado por pequenos brilhos de festim a base de fogo. Era possível ouvir ecoar das favelas próximas a minha casa a palavra “liberdade”, “fora pt”, “viva a família de bem”…
Tomei um gole de licor e abracei fortemente Carolina. Não desejei mau algum a minha mãe, apenas me entristeci por toda alienação e falta de instrução moral e política que ela obteve durante toda sua vida. Me lembrei de Vinícius, um morador de rua que conheci um dia antes de Bolsonaro ganhar e sorri… “Foda-se o Bolsonaro. Foda-se o Lula. Quem faz a democracia é nós, é o povo junto e unido. Nós estamos ai na luta todo santo dia a anos sendo resistência certo, não é um fascista de merda que vai ditar a nossa própria vida daqui pra frente. Acredita em você e no amor ao próximo que só assim a democracia vence.”

Por Vinícius, por Carol, por todas as mulheres e homens negros periféricos, pela comunidade LGBTQ+ e por todas as minorias que se foram perante ao ódio eu, Maria Vitoria, hoje e sempre, SEREI RESISTÊNCIA.

16 comentários sobre “O voto em branco, as lágrimas e o Vinícius

  1. A história oferece-nos suas lições, mas, nem todos/as conseguem ou querem ler… 30 anos atrás eu segui este rumo, com 17 anos e votei no Collor… hoje, sei que não é Lula, FHC ou Bozo que que vai me fazer ser melhor… posso dizer, ele não e nunca… não sou petista, mas, prefiro votar no PT, PCdoB, PSOL, enfim, que submeter-me a esta corja do bozo… tamo juntos… viva Belchior…

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  2. Suas lágrimas são as minhas também. Fiquei muito triste e completamente de queixo caído com esse resultado e, na hora que tentei colocar pra fora tudo aquilo que estava sentindo, recebi como resposta que eu não posso opinar porque não moro mais no Brasil, que morar fora já me tira completamente o direito a opinar. Senti como se quisessem arrancar a minha cidadania à força. Mas é isso mesmo, continuaremos a resistir, dentro ou fora do Brasil. Beijos

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  3. Também estou incrédula e com medo por mim e pelos meus amigos e amigas que fazem parte da “””minoria””. Eu ia te desejar força mas isso é quase que obrigação nossa, sermos fortes e resistir. Seguimos.

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  4. O mundo não é justo. Nem injusto. É só um lugar onde acontecem algumas coisas maravilhosas. E muita, muita porcaria. E a gente tem de seguir por esse vale de lágrimas. Só porque sim.

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