PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | LIVROS

A uma segunda derme que me reveste, posso sentir o chiar das bolhas invisíveis que brotam das pintas e das verrugas. Na madrugada tudo em mim fica mais rijo, mais firme, como se eu fosse capaz de criar dentro de mim um ser que nunca haveria de ser planejado. Me esquento tão vorazmente na mesma proporção que esguicho água fria pelas entranhas. Engulo um grande pedaço de carne bovina coagulada, meio mole, meio fétida. Transformo-me. Transfiguro-me. Transpasso-me.

Livros são em mim, uma mistura de água de privada com adoçante de marca barata.

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Ao centro, meu livreto de poesias: A ESTRANHAMENTE

Quando eu tento não ser eu, um livro desses vem e me resgata. Todos estes seis livros entraram em minha vida recentemente. Uns falam mais do que os outros, mas todos sabem dialogar com minhas insanidades – ansiedades.

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Um dos meus textos na edição especial: Marielles 

Eu nunca havia escrito sobre ninguém, não em particular, ao menos não de forma tão séria. Lembro-me de me sentir incapaz, de não me achar boa o suficiente para escrever sobre Marielle Franco. No final, tudo saiu poético. Saiu fluido… Eu sou, Marielle Franco. Toda a minha resistência. Todo o fardo pesado que carrego em meu lombo. Todas as milícias invisíveis que me perseguem. Toda bala que me fere. Toda arma que me mata. Por todo amor que eu tive de subverter por amar outra mulher. A todo soco na boca do estômago que eu tive de aturar. A toda traição e perjúrio que os homem cometem em relação a mim e ainda haverão de cometer. Eu, Marielle Franco. Presente!

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Quem me vê nem imagina que essa é minha praia

Os pés vão quase desnudos mesmo nos dias de frio extremo. As calças e as blusas são largas, folgadas e nunca são novas. Quando ganhei este livro semana passada, automaticamente voltei a dois anos no tempo e me recordei das vezes que eu bebia corote puro às 7h da manhã todo santo dia, só para aguentar de forma menos sofrida toda a tristeza, solidão e sensação de fracasso que eu trazia no peito. Na época eu trabalhava na instituição de ensino público mais requisitada e bem falada de todas, Cidade Universitária, famosa USP. Quando eu cheguei lá no primeiro dia jamais poderia imaginar que um ano depois eu sairia desse mesmo lugar a base de surto mental. Hoje ainda estou aqui de pé, tomando corote de sabor ao invés do puro e escrevendo um milhão de vezes com mais potência e racionalidade do que antes e o melhor, eu acabara de ganhar este livro coincidentemente, uma semana depois que eu dei inicio a minha especialização sobre álcool e drogas.

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Eu que sempre fui de escrever nem imaginei um dia virar revisora

A um passo da felicidade. O primeiro romance que eu assumi a responsabilidade de revisar. Eu que sempre fui só de escrever, me surpreendi quando esta obra que se passa no século XVIII sobre dois escravos caiu em meu colo. O levo comigo para as andanças da vida e o rabisco de ponta a ponta… Toda vez que leio minhas anotações, modifico alguma coisa. Gosto quando o texto tem fluidez, quando eu vou recitando palavra por palavra de modo silencioso em minha mente e elas dançam como se fossem procriadas em clarinetes. Revisar é um processo de encontro também, você se introjeta na história do autor de tal modo e quando você vai ver, dez páginas de uma obra sua se criaram bem diante dos teus olhos e você nem se quer fez um esforço para compor sua própria obra prima. Revisar é amassar o lápis esperando que ele não quebre seu coração ou desaponte suas perspectivas.

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Dizem que os clássicos são os clássicos

Eu tinha ido fazer um ensaio fotográfico para o Projeto Ciclos no centro de São Paulo. Era uma quarta-feira, eu tinha vinho branco na mochila, o tênis roçava na cicatriz de meu tornozelo, a modelo e eu estávamos tão a vontade em determinado ponto que ambas nos encontrávamos seminuas num apartamento antigo com banheira e a claridade apenas das velas. A modelo não era modelo. No final da noite eu faltara na aula sobre previdência social. Falávamos incansavelmente sobre relacionamentos que não deram certo e dvds sobre filmes franceses. Os olhos dela estavam tão baixos que era possível avistar as cápsulas de remédios antidepressivos saltando de suas retinas. Eu comi uma fatia de melão e depois dividimos ovos mexidos e pão de forma. Ganhei José de Alencar de Barbara. Voltei para casa sem blusa de frio. O termômetro marcava, 15º graus.

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O prefácio dizia: abril de 1964

Passava eu nesta manhã pela estação Butantã e na cabine de leitura do metrô estava lá ele, colocado estrategicamente de forma abandonada dentro de um caixote revestido na cor amarela. O preto da capa alcançou meus olhos. Li o prefácio e pensei: talvez seja interessante esse fulano aqui, um tal de Antônio Carlos Cintra do Amaral falando sobre suas memórias durante atividade política em Pernambuco durante o período de abril de 1964 a novembro de 1965. Eu acabava de voltar da estação, Jardim São Paulo. Aquele lugar é cercado de casas e carros que eu nunca poderei comprar, mais o melhor de tudo é saber que esse livro foi de graça, assim sobra o equivalente a 5 reais no meu bolso pra tomar um vinho barato antes de ir pra aula de Gestão e Planejamento mais tarde.

Livros sou eu. Eu, sou os livros.


PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | LIVROS

PARTICIPAM DESTE PROJETO

Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Isabelle Brum – Luana de Sousa – Lunna Guedes

Mariana Gouveia – Obdulio Nunes Ortega

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