NOVOS AUTORES

A minha cor é a ameaça

A viatura já estava quase me ultrapassando… Eu estava dirigindo meu carro devagar, tranquilo, escutando um Rap. Quatro PMs e só um me notou. Justamente o irmão da minha cor e imediatamente fui parado, abordado, revistado e questionado porque estava num carro daquele e nem é zero. O meu carro, comprado com o suor da minha labuta diária.

Nestas minhas 4 décadas de vida, aprendi a não responder quando alguém só quer um motivo, aprendi a sobreviver quando todas as estatísticas me colocam como morto: preto, pobre, morador da periferia. Mas estou aqui.

Nasci com uma cor que não existe, meus documentos dizem que sou pardo… Mas sei que sou negro. Não apenas de opinião, mas de raça e de geração. Descobri desde cedo que como negro não poderia ser o principal do teatro da escola. Que minhas notas 10 eram nada mais que minha obrigação. Que meu cabelo era chamado de pixaim, que era ruim. Mas tudo que eu sempre fiz, não foi para provar nada, mas porque eu sou capaz. Meu pai me dizia que nós pretos temos que trabalhar e mostrar que somos honestos. Ele esqueceu de me dizer que eu poderia falar, reclamar e ser contra tudo o que não fosse justo contra mim, contra minha raça. Nunca tive um chefe negro. Até na igreja, católica que sempre fui, conheci apenas 4 padres negros e 1 bispo negro apenas. Cresci em Campinas, São Paulo. Periferia da zona Norte da cidade. Um dos bairros mais violentos. Num bairro que não tem praças. Quando criança convivi com muita gente, de todos os tipos. Tive a sorte de ter amigos verdadeiros brancos também,  que nunca viram minha cor, jamais me trataram com preconceito e suas famílias nunca foram racistas comigo ou qualquer outro negro que fosse. Mas esses eram meus amigos. Senti cedo o que é ser taxado. Quando chegava nas lojas e o segurança me fazia companhia, quando andava nas ruas e muitas senhoras trocavam a calçada. Quando o PM só me via.

Eu já fui abordado pela policia umas 150 vezes. Desisti de contar. Sempre com as mesmas perguntas, a mesma truculência  e nunca com a sinceridade de dizerem que era só porque sou preto. Nunca fui uma ameaça, talvez a ameaça na visão da policia fosse minha cor. Sempre frustrei a vontade do sistema. Meu texto é o problema, minhas opiniões. Procurei empregos e fui julgado primeiro pela raça e só depois pela experiência. São racistas hipócritas.

Encontrei no Rap uma voz e desde cedo descobri que posso sim falar, escrever, desenhar e nunca me calar. Sou DJ também. Minha equipe de som só tocava black e era formada por negros e brancos. Tenho a verdadeira consciência de que sou sim um cidadão, uma pessoa e não um estereótipo. Por isso faço o meu caminho. Sem esperar a bondade, sem dar valor a uma beleza que não seja verdadeira. Sou preto sim, sem medo. Não tenho mágoa, mas é tão triste saber que existe ainda quem tenha um pré-conceito sobre  raça,  sobre sexualidade,  sobre condição social.

Respeito para ser respeitado. Estudei até onde a necessidade deu, e na minha época foi o máximo. Sempre trabalhei desde os 13 anos, não bebo, fumo ou uso qualquer coisa para fazer a mente, vou na igreja e crio meus filhos. Mas isso não muda nada, e nem deveria,  porque a discriminação é a mesma. Então vivo a minha vida fugindo de virar estatística. A minha cor é a ameaça. Ter consciência da minha negritude já é parte da vitoria. Aprendi sozinho. Aprendi com o Rap. Aprendi com grandes pensadores negros. Li muito. E ensinei aos meus filhos que é lindo ser negro e quem não enxerga isso é porque não sabe o que é beleza.


ONDE ENCONTRAR OUTROS TEXTOS DO AUTOR:

Poemas em Preto e Branco


Se você também escreve e gostaria de ter um trabalho seu divulgado aqui no ESTRANHAMENTE, entre em contato comigo e na próxima quinta-feira, o próximo autor pode ser você.  

6 comentários sobre “NOVOS AUTORES

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