Entrevista com a escritora, Lunna Guedes

Escritores(as)!

Venho por meio deste lhes apresentar a primeira entrevista realizada pessoalmente com perguntas e fotografias feitas por mim. Todas as palavras aqui contidas foram transcritas de uma forma singular por uma pessoa muito querida por mim que tive o prazer de conhecer através desse universo dos blogs e que desde então temos uma relação de escrita e café muito proveitosa. Os convido para apreciarem as palavras da Escritora, Editora e Artesã de livros, Lunna Guedes dona da editora:  Scenarium Plural

1) Quem é Lunna editora? Quem é Lunna escritora? Quem é Lunna na sociedade? 

São três personagens que começaram a ser forjadas no templo da infância, numa mesma pele. É uma mesma alma… a menina que descobre as letras e brinca de formar palavras-frases e se diverte em inventar histórias a partir das coisas que descobre no mundo e suas formas e fôrmas e se alimenta de livros que encontra pelos cômodos da casa. Todas, sem dúvida, convergem para a mulher leitora, que se informa e não renuncia a própria opinião sem um bom argumento. Que lamenta a realidade, quando está envenenada por discursos prontos e frases forjadas para manipular e agradar a quem se contenta em ser boneco de ventrículo.

2) Se você não fosse escritora que rumos você teria trilhado? 

Eu trilhei outros caminhos, antes de atracar nesse Porto-literário. Fui barco a navegar por outras águas. A psicologia foi meu Norte e a Psicanalise uma espécie de bússola. Não abri mão desses caminhos, os dois ainda me orientam e, tenho para mim, que nunca será diferente disso.

3) Como é ser escritora num cenário majoritariamente comandada por homens na cena Literária? 

No meu caso, foi essencial porque eu sempre me relacionei mais com homens que com mulheres, por ser uma criatura andrógina. E, isso me permitiu vagar por esses dois mundos. O universo masculino, no entanto, sempre foi mais receptivo. E tenho para mim que isso me permitiu compor a visão de Mulher que tenho atualmente.

Sou completamente apaixonada por Mulheres, enquanto pessoas-personagens-autoras-editoras. Elas são fascinantes e quando ocupam um espaço, o fazem com uma intensidade voraz. São fases lunares, quatro estações, meia-noite, meio-dia. Tudo e nada. E minha literatura depende dessas Damas. Costumo dizer que a literatura me leva de volta ao tempo do escambo e me permite essa troca.

4) Como você desenvolveu suas habilidades de escrita? 

Com a realidade, que sempre alimentou o meu imaginário, com alguns mestres (homens e mulheres) que foram generosos em repreender meu traço, sempre exagerado. Com meus pares, que me tiraram dessa zona de conforto, onde nos enfiamos sem perceber. Com parceiras de vida, como Luciana Nepomuceno, Adriana Aneli, figuras vivas-intensas-afiadas. Como Susan Sontag e Jane Austen. Mario de Andrade e T.S.Eliot. Ler foi essencial, mas escrever diariamente, rascunhos descartados, por escrever somente foi meu melhor movimento. A psicologia foi uma aliada e a convivência com autores, um incentivo. Mas, sem dúvida que amassar rascunhos e sentir a deformação do papel entre os vãos e o som oriundo desse gesto, que impõe fracasso-vitória e um sem-fim de desaforo na pele, foram essenciais.

5) Você mantém um leitor ideal em mente quando escreve?

Sim, a mais terrível e exigente de todas. Nunca satisfeita. É para essa leitora, que escrevo cada frase e reescrevo tantas e tantas vezes a mesma linha… até colher um sorriso miúdo, nos lábios e aquele relaxamento muscular de aprovação. Uma tarefa nada fácil e que parece se tornar um pouco mais impossível a cada novo escrito.

6) Geralmente você gosta do que escreve logo de cara ou você passa pelo processo de edição textual várias vezes? 

Posso colar minha resposta anterior aqui? Pausa para um gole de café e um sorriso de orelhas.

7) Qual escritor(a) mudou sua vida? 

Emily Dickinson… na infância. Jane Austen na juventude e Susan Sontag na idade adulta.

8) Você tem o hábito de ler autores desconhecidos? 

Tenho o hábito de ler autores…. e se, os encontro e devoro, não os considero desconhecidos. São meus, estão em mim e sei quem são.

9) Por que elaborar e comercializar livros artesanais ao invés dos formatos padrões? 

Porque eu sempre fui fascinada pelo underground e suas variáveis… sempre evitei os padrões, as fôrmas e formas prontas. Criou-se uma ideia de que a pessoa só é escritor se tem um livro publicado e geralmente esse livro tem um formato reto-quadrado. A única mobilidade é da página quando o leitor vai para a próxima.

O livro artesanal é um jogo sem regras e brinca com o autor e também o leitor, que nunca sabe o que irá encontrar. É único-raro-pouco e está sempre em movimento. Não é para prateleiras. É para ser lido e vagar de mão em mãos. Há quem guarde em malas, caixas… e isso é lúdico. Me lembra viagens, passagens. Me lembra a vida que está sempre em movimento até que acaba.

10) De que forma você relaciona os seus personagens com as pessoas que você conhece?

Dependem-se! Eu escrevo a partir das pessoas que conheço-reconheço. As pessoas alimentam meu imaginário diariamente com tudo que são e não são. Quando escrevo, melhoro ou pioro, exagero suas vivências.

11) Onde você encontra os autores que fazem parte do seu clã? Que publicam e/ou convive com você? 

Eu digo que o universo conspira ao meu favor… mas, a maioria veio de um tempo anterior a esse, através dos blogues, que eu considero o melhor celeiro de escritores, onde se pratica a literatura de maneira intensa-errática-diária-espaçada.

12) Como você divide seu tempo entre leitura e escrita? 

Quando não estou a ler, estou a escrever e vice-e-versa. Nunca me relacionei com essa coisa de tempo, acho que o mais próximo disso foi na infância, em que meus movimentos eram orientados pelos meus. Tempo de acordar, tomar banho, café da manhã. Almoço e jantar. Alguém sempre me avisava do tempo, então me lembrava dele. Mas fui sempre ausente-atemporal. Sei que anoitece e amanhece e geralmente isso acontece dentro das páginas dos livros que leio ou escrevo.

13) Escrever bem é um dom ou muita prática?

Não acredito em escrever bem. Acredito na escrita que fala e reverbera na pele. Ou me alcança ou se perde. Eu gosto da escrita que é feita no ar, na própria pele, por dentro. A que é confissão-crime e te coloca na condição de testemunha que não pode mentir, mas que também não pode dizer a verdade. Culpada, sempre.

14) O que você diria para alguém que almeja ser escritor?

Escreva por escrever somente. Escreva diariamente. Escreva uma frase inteira, pela metade. E leia incontáveis vezes… até que a frase te cale-silencie e te obrigue a uma pausa, que é uma vida inteira. Tudo-nada… vida-morte. Escreva até sentir que acabou e começou de novo e de novo e de novo até nada mais restar de si, em si. E não acredite, nem por um misero segundo que está pronto-acabado. E se, sentir vontade de dizer em voz alta que é um escritor, respire fundo e sinta as palavras, por dentro. E, se transbordar de tão cheio, permita-se.

Eu digo isso a mim, todos os dias, desde que olhei no fundo do espelho, encarei aquela figura-nocturna que ali vive… e disse em voz alta: “a partir de hoje eu quero viver embriagada de literatura”. Então quando perguntam o que eu faço, eu respondo: eu bebo muitos goles de café. 

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11 comentários sobre “Entrevista com a escritora, Lunna Guedes

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