PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | PRETO & BRANCO

No contraste das não-cores, existe um cinza que me move, que me toca, que me comove, que me acentua… O melhor de mim é cinza e acredito que essa de fato seja a cor mais quente.

@a_estranhamente
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Homens negros trabalhando bem atrás de um canteiro com a pichação: EDUCAÇÃO PÚBLICA DE QUALIDADE.

Enquanto isso, homens e mulheres brancos passam com suas sacolas abarrotadas no sol do meio-dia, transitando com o brilho no olhar de quem nunca adquiriu calos nas mãos por trabalhar mais de 10 horas a fio embaixo de um sol escaldante, usando botas apertadas, uniforme extremamente quente e não possuindo um real em seus bolsos para comprar uma bala sabor esperança.

@a_estranhamente
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O centro de São Paulo e seus dias comuns, com pessoas comuns, com invisibilidade comum, com obstrução de direitos comum, com a tortura da fome comum, com o negro transbordando das calçadas comum, com as baratas pousando em lanches de fast food comum, com morte de pessoas em situação de rua comum, com crianças baforando lança perfume em frente a igreja na praça da Sé comum, com mulheres sendo agredidas comum, com o pobre sendo explorado em subempregos comum, com pombos degustando vômito de jovens alcoolizados às sete da manhã comum, com travestis fazendo programa com homens que são homofóbicos de dia e gostam de dar o cu de noite para esses mesmos travestis que eles tanto dizem odiar comum, comigo observando tudo em silêncio enquanto anoto cada cena comum.

@a_estranhamente
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Uma vez eu vi uma cena nesse mesmo lugar, de um homem que dormia ao chão numa tarde de agosto com o sol transbordando por entre um céu meio azulado. De longe eu avistava o vai e vem das pessoas e tentava adivinhar de onde elas vinham e para onde diabos elas iam sempre com tanta pressa ou sempre tão dispersas e indiferentes. Me lembro nitidamente, de ficar um bom tempo olhando para aquele homem ao chão com um cobertor desses que a gente tá acostumado a ver nos dias de “ajuda aos pobres e necessitados”, dormindo serenamente no meio daquele caos urbano e irracional. Lembro de ter dado um grande e longo gole numa cerveja barata que eu havia comprado com os únicos três reais que eu possuía no bolso, já havia passado do horário do almoço e eu ainda não havia comido nada a mais de vinte e quatro horas. Não me importei com o estômago chiando de fome pois o amargo dos dias e a solidão misturada com um vazio imenso que trago na alma sempre me levam a beber antes de qualquer outra coisa. Depois de um longo gole, avistei dois homens brancos, altos, fortes, vestidos com ternos cinzas e gravatas pretas, passando tranquilamente por cima daquele homem dormindo ao chão. Os homens passaram em sincronia com seus pés calçando sapatos pretos brilhantes e bicudos, os homens vinham vindo dialogando sobre alguma coisa banal, muito apressados, gesticulando de forma esbaforida. Passaram por cima daquele homem como se estivessem passando por cima de bitucas de cigarro que se pisadas exalam um câncer mortal, mas mesmo assim as pessoas pisam porque é necessário que se extermine o câncer antes que ele mate a todos nós. Os homens passaram e em seguida uma mulher muito bonita, cheia de curvas e gingado passou por eles e os dois a comeram com os olhos e disseram alguma coisa em conjunto da qual eu não consegui ouvir. Achei engraçado o fato deles terem reparado na mulher e não no homem que eles haviam acabado de passar por cima. O homem ao chão ainda dormia pesadamente ou talvez estivesse morto e ninguém sabia. Fiquei mais alguns minutos observando o homem ao chão e algumas pessoas que passavam por ele torciam o nariz ou o tapava como se algo estivesse com cheiro de podre. Será que era o homem que estava em estado de decomposição ou era os homens que há muito tempo morreram antes mesmo de se tornarem homens que passam por cima de outros homens?

@a_estranhamente
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Às vezes a gente atravessa a cidade mas a cena ainda continua a mesma. Não importa em que buraco você se esconda, sempre haverá buracos cheios o suficiente que necessitam expulsar milhares de vidas desabrigadas.

@a_estranhamente
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Pra mim, o melhor lugar que existe na face da terra pra aprender a escrever e aprender um pouco mais sobre nós mesmos é nas estações de metrô. Faço dessas estações meu escritório particular e tão amado, tendo obrigatoriamente que voltar para casa depois das aulas sentada na janela escrevendo alguma crônica ou algum poema sobre o transbordar da vida e minhas próprias subjetividades. Se vocês pudessem ver a quantidade de personagens que esse cenário proporciona, aposto que todo mundo no Brasil ia se tornar escritor.

@a_estranhamente
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Olhos turvam-se. Olhos se quebram. Olhos choram. Olhos me observam. Olhos caçam defeitos em minha alma. Olhos me cospem. Olhos me penetram. Olhos me mutilam. Olhos reviram minha mente. Olhos, olhos e olhares negros.


PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | PRETO & BRANCO

PARTICIPAM DESTE PROJETO

Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Isabelle Brum – Luana de Sousa – Lunna Guedes

Mariana Gouveia – Obdulio Nunes Ortega

5 comentários sobre “PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | PRETO & BRANCO

  1. Esses contrastes urbanos, no começo, me fascinavam… depois ficou tão agressivo, deprimente. Hoje é incomodo pela condição do homem, seja o que dorme no chão e sua falsa liberdade, seja dos que passam e já não olham, não vêem… enfim, não quero nunca ser indiferente a essa cidade e sua gente de bronze.

    bacio cara mia

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