Desafio Literário | O QUE RESTOU DO CHEIRO DA NOITE

Pela milésima vez, ele olha o relógio pendurado na parede. Faltam cinco minutos para que os ponteiros se encontrem no número 12. A janela está aberta e o ar fresco anuncia o início da madrugada. Bem, nem tão fresco assim, mas é tudo o que ele possui neste momento.

Segura a caneta e a gira entre os dedos, colocando na boca como se fosse um cigarro imaginário. O vaso de flores artificiais que o inquilino anterior abandonou no parapeito da janela continua lá, trepidando ao menor sinal de vento. Ele coloca as mãos na cabeça, estica os ombros e boceja. Meia noite.

Levanta da cadeira e vai em direção à estante. Abre um livro antigo e, entre folhas soltas com fórmulas matemáticas anotadas, retira uma fotografia. Ele a toca da forma mais suave que pode. Colocando-a próximo às narinas, inala um aroma imaginário que acredita que ainda está ali… O cheiro dela, tão sereno e feliz, risonho e potente, continua ali.

Linda como a tez pálida da lua sorrateira. Dona de modos carinhosos – aquele tipo de afeto sincero, desprendido, pura e rara honestidade no pensar e no falar – e de uma capacidade mágica de criar e recriar. Era artesã, leitora contumaz, olhos felinos que se abriam e fechavam doces como o último beijo antes do sono.

Com um sorriso de intensa saudade e profunda gratidão, ele recoloca a foto no lugar e o livro volta para o seu sarcófago na estante. Assim como Byron, ele segue acreditando que ela deixou este mundo para caminhar na beleza, do mesmo modo que a noite faz todos os dias.

Não é fácil, mas o que é simples e corriqueiro na vida?

O olhar de uma criança? A flor que brota no campo? O latido feliz de um cachorro? O pulo do gato? O trânsito enlouquecido? Ou talvez a centopeia que se arrisca entre um galho e outro da árvore que repousa na calçada?

Quase duas horas da manhã.

A noite tem cheiro. O que restou dele, ao menos. E tem o nome de uma pessoa. Pelo menos para ele, para o que restou dele. Para os pedaços retorcidos que insistem em brotar no seu espírito.

Respiração ofegante.

Aço inoxidável.

Para-raios.

A cortina que balança e que parece sibilar um nome.

O cansaço resiliente.

O poema solto de Mario Benedetti lembrando que realmente é “uma pena você não estar comigo”.

Uma pena. Tão grande pena.

Cinco da manhã. A noite se despede.

Ele cerra as cortinas, desliga todas as luzes, deita e dorme.

O cheiro da noite foi embora. Volta na próxima hora.


PARA LER OUTROS TEXTOS DA AUTORA, MARA VANESSA TORRES

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3 comentários sobre “Desafio Literário | O QUE RESTOU DO CHEIRO DA NOITE

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