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O sonho comanda

“Tiago, a criança que sonhava…”

“Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer…

(…)

Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos duma criança”

                                                Pedra Filosofal – Manuel Freire

Olá. O meu nome é Tiago. Tenho 10 anos. Nem sei porque é que estou aqui a falar com vocês. Não tenho nada de muito importante ou interessante para vos dizer. Sou só mais um garoto que vive com a sua família, numa casa normal e que normalmente vai à escola, esperando que as horas passem, para poder ir para casa, brincar. Mas, ainda assim, querem que vos conte um pouco sobre a minha vida? Certo!…Então cá vai!…

Diz a minha mãe que nasci numa manhã de primavera, em 2008. Foi numa noite, de acordo com as suas recordações, de trovoada, num 15 de maio. Agora que penso nisso, fiz anos a semana passada…Este ano esqueci-me da data…não foi festejada…

Mas, voltando ao que vos estava a dizer, fui o primeiro filho de um casal (os meus pais) que se amava muito – ainda se ama muito é claro – e, como se amavam muito, quiseram selar esse seu amor e o casamento, o mais cedo possível, com o fruto do amor deles. Quero com isto dizer que pouco tempo depois de estarem casados surgi eu na vida deles para tornar o casamento e a vida deles ainda mais perfeita. Cresci num ambiente de tolerância e de paz. O meu pai gosta muito da minha mãe. São aquilo que algumas pessoas gostam de chamar de “casal moderno” uma vez que as tarefas cá em casa são partilhadas. Normalmente é o meu pai quem cozinha porque chega mais cedo a casa. Quando a minha mãe chega a casa, a maior parte das vezes já eu e a minha irmã lanchámos e eu fiz os trabalhos de casa (a minha irmã é muito nova e por isso, a sortuda, ainda não tem trabalhos de casa!) O meu pai prepara o jantar e a minha mãe vai ajudar a mana a tomar banho. Eu, como é óbvio, já faço essa tarefa sozinho. Depois de jantar, sentamos um pouco a ver televisão e depois vamos dormir. Isso, durante os dias da semana.

– E ao fim-de-semana? Queres contar-me como passam os dias?

– Sabes, tu és um pouquinho curiosa! Fazes muitas perguntas! Porque estás tu tão interessada na minha família e no que fazemos? Somos uma família tão normal…

Aos fins-de-semana a vida altera-se um pouco. A minha mãe costuma ser a primeira a levantar. Habitualmente prepara-nos o pequeno-almoço – como é fim-de-semana e temos tempo – a minha mãe cozinha panquecas ou waffles. Nesses dias também temos direito a sumo de laranja natural. Os meus pais aproveitam essa manhã para conversarem, enquanto eu e a minha irmã brincamos no jardim. Ah, já te disse que tenho um cão? Ele é nosso mas é mais meu, percebes? É meu amigo. Passa o tempo todo comigo. E como já sou grande, sou eu que o alimento e tudo! Sou eu quem toma conta dele!! O resto do fim-de-semana…Ah, já sei! O resto do fim-de-semana vamos passear! Os meus pais gostam muito de passear, sabes? E nós brincamos, e eles conversam. O meu cão brinca connosco… Os meus pais amam-se muito, já te disse? Andam sempre abraçados, aos beijinhos. E gostam muito de nós! Já te disse isso também?!

– Sim, Tiago, já me disseste. E eu sei que já te perguntei muitas coisas mas…posso fazer mais umas perguntas? Podemos continuar a conversar?

– És mesmo muito curiosa. Mas sim…podes perguntar…

– A vida em tua casa é sempre tão harmoniosa? São todos assim felizes, todos os dias, como tens dito? Lembras-te de alguma discussão entre os teus pais?

Tiago calou-se durante alguns minutos, baixando os olhos, com um ar obstinado no seu rosto… Torcia as mãos, num gesto nervoso. Abriu a boca para falar…voltou a fechá-la, levantou os olhos, olhou para Andreia (assim se chamava a senhora curiosa). Andreia observou uma sombra a perpassar pelos olhos de Tiago que depressa desapareceu. Um sorriso voltou ao rosto da criança. Com a sua voz cândida, Tiago respondeu: não há casas perfeitas. A minha mãe diz que também não há famílias perfeitas, sabes? Diz isso muitas vezes… Lembro, sim, de discussões entre os meus pais. Duas ou três…não foram muitas. Já te disse que eles se amam muito?! E já te disse que eles amam muito os dois filhos, não já?! Mas…às vezes acontece. Toda a gente discute. Sabes que eu, no outro dia, me zanguei com o Jorge? Tivemos uma briga muito feia! Mas agora somos amigos outra vez!

– Tiago, agora quero fazer uma pergunta mais pessoal. Se sentires que estou a ser demasiado curiosa, diz-me…Não quero que te sintas magoado com toda a minha curiosidade. Está bem?

– Ok…tu pergunta…e eu logo vejo se me apetece responder-te. Pode ser assim?

– Pode, sim. Sabes, Tiago, tenho estado aqui a falar contigo e a observar ao mesmo tempo como és bonito. Sabias que és um miúdo giro? Esse cabelo rebelde, esses olhos muito vivos e muito expressivos. És giro a valer!! Mas…tenho reparado que a tua pele tem muitas manchas…parecem nódoas negras… São efetivamente nódoas negras?! Queres contar-me o que te aconteceu?

Mais uma vez se instalou o silêncio naquele gabinete. O olhar de Tiago ficou vazio, inexpressivo. Como que tendo a noção que as mãos o traíam, colocou-as debaixo das pernas. Mais uma vez a boca se abriu para falar e nenhum som dela saiu. Andreia aguardava pacientemente enquanto observava os traços e as reações de Tiago.

– Sabes…eu sou desastrado. Acho que é um problema de família. A minha irmã já começa a ser como eu, desastrada. Volta e meia e lá dá uma queda. Saímos à minha mãe. Ela é que é a verdadeira desastrada. Por vezes andamos assim os três, com nódoas negras. Mas são coisas que acontecem, sabes? Tropeça-se…cai-se…uma porta de armário mal fechada…a minha mãe no outro dia escorregou e caiu nas escadas…foi uma queda feia…

– Tiago, quero falar daquela noite em que uns senhores te foram buscar, a ti e à tua irmã, a casa… lembras-te disso? Queres contar-me o que aconteceu, para os senhores te irem buscar?

Tiago nesse momento decidiu não comentar mais nada. Aquela senhora era de facto muito simpática. Tinha-lhe oferecido chocolate, tinha uma voz doce, escutava-o pacientemente. Mas era demasiado curiosa! Ela fazia demasiadas perguntas! Ele já tinha partilhado tanta coisa com ela. O que mais queria ela saber?

Andreia voltou a questionar Tiago sobre o sucedido naquela noite. Ao fim de algum tempo de silêncio, Tiago achou que podia contar-lhe algumas coisas. Começou, de forma hesitante, com tropeções na voz:

Sabes, Andreia, começou por dizer, foi um mal-entendido. Às vezes, muito de vez em quando, já nem me lembrava da última vez que isso aconteceu, o pai, em vez de ir para casa preparar o jantar como é hábito dele, para no café para conversar com uns amigos. E às vezes, porque está muito calor, bebe umas cervejas. Ele não é má pessoa, é um excelente marido e um excelente pai (a minha mãe está sempre a dizer-nos isso, a relembrar-nos) mas não aguenta bem a bebida. Então quando a minha mãe chegou a casa e viu que estávamos sozinhos ficou um pouco zangada. Quando o meu pai chegou ela foi pedir-lhe satisfações, sobre o atraso e sobre o termos ficado sozinhos em casa. A minha mãe não entende que eu já sou grande, que posso muito bem tratar de mim e da minha irmã. Não precisamos sempre “dos grandes” ao nosso lado. Mas a mãe não entende isso…e deve ter tido um dia complicado lá no trabalho…começou logo a falar alto, a aborrecer o pai…O pai é um bom marido e um bom pai mas quando bebe um pouquinho…altera-se. É preciso deixá-lo descansar. Dormir. Mas a mãe não entende… Então ele zangou-se um pouquinho com a mãe e, penso que sem querer, empurrou-a e ela caiu. Eu assustei-me muito porque ela ao cair bateu na quina da mesa…eu…eu não sei…ela parecia adormecida e havia muito sangue…comecei a chorar, a minha irmã também chorava muito…o meu pai depois de gritar connosco saiu porta fora…(já não o vi mais…ainda não sei onde ele está…)… Não sei quanto tempo passou…só sei que algum tempo depois entraram os vizinhos acompanhados pela polícia e levaram-nos a todos… Desde então estou em casa da avó com a mana. A mãe continua no hospital…o pai ainda não apareceu…

Enquanto narrava estes momentos, o semblante de Tiago ia ficando mais e mais sombrio. As lágrimas pareciam prestes a rebentar a qualquer momento mas a criança aguentava-as estoicamente, não as deixando cair. Talvez tivesse ido longe demais nesta primeira entrevista. Amaldiçoou por dentro aquele pai que, claramente, os violentava. Estava cansada deste trabalho em que tantas e tantas vezes lidava com o sofrimento de crianças e jovens inocentes. Olhou para Tiago e propôs-lhe fazer um desenho. Continuar a questioná-lo, nesse momento, não seria benéfico…Tiago acedeu. Rapidamente os lápis começaram a dançar no papel. Em pouco tempo surgiram figuras humanas muito bem desenhadas. Facilmente se distinguiam dois adultos (provavelmente os pais) e duas crianças. Ele e a irmã. Todos apresentavam caras muito felizes. Todo o quadro pintado por palavras tempos antes por Tiago surgia agora pintado por imagens. A família com ar feliz, à beira de um rio, no que parecia um piquenique. O cão de que falara, também se encontrava no desenho. Comiam o que parecia serem panquecas. Contudo, o que mais chamou a atenção de Andreia foi que todo o desenho: a “família feliz”, o cão, o rio, a toalha do picnic, se encontrava envolvido como que numa nuvem. Do lado de fora da nuvem um só menino, parecido ao que estava dentro da nuvem mas todo ele vestido de negro. Os braços apresentavam as mesmas nódoas negras que o desenhista apresentava.

Quando Tiago deu o desenho por concluído, Andreia pegou nele, observou-o atentamente, analisou todos os seus pormenores. Tiago disse-lhe para ficar com ele. Era uma forma de retribuir o chocolate que ela lhe tinha oferecido. Andreia aproveitou a oferta para o questionar sobre o desenho…qual era o significado daquela nuvem que os envolvia a todos? Quem era o menino que estava fora da nuvem?

Tiago observou-a atentamente. Gostava dela. Não sabia explicar porquê mas ela tinha um sorriso que o fazia confiar nela. Explicou: “sabes, a minha avó gosta muito de ouvir música. Gosta mais de ligar o rádio do que ligar a televisão. Ouve umas músicas que eu nunca ouvi antes. Penso que são músicas antigas…Ouve uma que gosto muito, muito. A música diz:

Eles não sabem que o sonho/ É uma constante da vida/ Tão concreta e definida/ Como outra coisa qualquer”. A minha avó explicou que o que ele quer dizer é que sonhar é bom. Que devemos sonhar porque o sonho pode ser uma realidade, de contornos bem definidos. Devemos sonhar porque sonhar nos faz bem…E por isso eu sonho muito. Criei um outro mundo, uma outra realidade. Fora da nuvem estou eu…mas na nuvem coloquei o meu sonho…bem traçado e definido como está na minha mente…aí sou feliz!

De lágrimas nos olhos Andreia lembrou o quão sábias e resilientes podem ser as crianças… Relembrou alguns versos da “Pedra Filosofal” citada por Tiago: “…E que sempre que o homem sonha/ O mundo pula e avança/ Como bola colorida/ Entre as mãos de uma criança”. E pensou que estava perante um vencedor. Tiago tinha criado as suas próprias armas, era um sonhador…e Andreia sabia, tão bem quanto o poeta, que são esses os que não se rendem, são esses que fazem o mundo avançar.


PARA LER OUTROS TEXTOS DA AUTORA: ESTEFÂNIA BARROSO

ACESSE O BLOG: STEFF’S WORLD – A SOMA DOS DIAS

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