Observar em silêncio é melhor que dizer algo

Observar em silêncio é melhor que dizer algo – poderia ser uma das máximas da minha vida. Estou plenamente convicta que esta é uma das atitudes mais sábias que terei aprendido ao longo das minhas quatro décadas.

A verdade é que até há algum tempo eu não era nada assim. Poderia dizer que, quando era “Menina e moça”, era aquilo que em Portugal se chama de “uma rapariga sem papas na língua”. Sempre gostei de falar, de exprimir as minhas ideias, os meus pontos de vista. Sempre gostei de contar aos outros sobre aquele livro ou aquele filme que tinha visto e que era tão, mas tão bom, que tinham absolutamente de ler ou ver. E assumo que me dava um prazer enorme perceber quão persuasivo era o meu discurso, quando a pessoa me vinha falar do livro ou do filme que tinha acabado por ler/ ver por causa da minha crítica positiva. Assumo que estas características da meninice e da juventude não se perderam com a idade adulta. Talvez seja essa a razão por manter um blog de escrita de crónicas e contos e mais umas quantas páginas no Facebook onde vou falando e escrevendo sobre todo e qualquer tema de que me possa lembrar, onde vou criando histórias de um mundo real ou alternativo.

É um facto que mantenho a vontade de falar e opinar sobre o muito que me rodeia, sobre o que gosto mais e o que gosto menos. Contudo, percebi com a idade que, para poder falar com qualidade sobre os assuntos que pretendia abordar, eu tinha, primeiro, que observar. Isso era algo que eu fazia bem menos, na juventude. Certa que era a detentora do saber único, fazia ouvir a minha voz bem alto até porque estava convencida que era aquele que falava mais alto quem era o senhor da razão. Expunha os meus pontos de vista certa que não haveria outro ponto de vista válido. Expunha os meus pensamentos e sentimentos mais profundos com a maior facilidade porque pensava que o mundo era construído através da palavra. Nada de extremamente importante poderia ser dito apenas com um gesto ou um olhar.

Com o passar dos anos comecei a perceber que esta não era a melhor atitude. Ao impor a minha voz e a minha verdade, estava a escapar-me a voz e a verdade dos outros. E ao escapar-me a verdade dos outros estariam a fugir-me, simultaneamente, os seus mundos e a sua forma de os observar. Percebi que ouvir e observar o outro pode ser extremamente enriquecedor para mim, para a minha formação, percebendo que existem outras perspetivas igualmente válidas sobre assuntos variados.

Simultaneamente, com uma maior calma em observar os comportamentos dos outros, surgiu uma maior serenidade em relação a tudo o que me rodeia. Passei a dar tempo a mim mesma para estar inativa: hoje dou tempo a mim mesma para me sentar, sozinha, numa esplanada e observar as pessoas que me rodeiam. Tantas e tantas acabaram por ser esboços das personagens dos meus contos. Hoje dou tempo a mim mesma para parar o carro e observar a natureza apenas e só porque está a nascer o sol ou, pelo contrário, ele se está a pôr. Quanta inspiração para a minha escrita não me surgiu dessa quietude e observação em silêncio?

Por fim, ao ter aprendido a observar mais antes de ser “uma conversadora sem atalho” (outra das expressões que utilizamos para alguém que fala muito e que conversa imenso), consegui perceber que nós, os seres humanos, comunicamos bem mais por gestos, olhares e comportamentos do que por palavras. Percebi que podemos dizer “amo-te” apenas com um abraço apertado ou com um olhar mais profundo. Contudo, percebi, também, que as palavras doces que saem da boca podem ser completamente contrárias ao que observamos no gesto da pessoa que as diz. Percebi que nem todos os seres humanos são puros, nem todas as amizades são verdadeiras, nem todos os que dizem, por palavras, amar, amam mesmo. E percebi que todas estas conclusões são mais fáceis de tirar se me dedicar mais à observação do que à locução.

Não poderei dizer que mudei a 100%. A minha natureza é naturalmente conversadora. Continuo a gostar de conversar com quem encontro na rua com disponibilidade (mental e temporal) para dar dois dedos de conversa. Continuo a gostar de expor as minhas ideias e os meus pensamentos (Condição para se ter um blog de escrita, penso eu!). Mas o tempo que passou por mim trouxe calmaria e serenidade a uma pessoa que era, acima de tudo, tempestade. O tempo que passou por mim trouxe-me a certeza que parar, sentar e observar, parar, sentar e ouvir são altamente enriquecedores. Por fim, o tempo que passou por mim ensinou-me que aprendo bem mais sobre os seres humanos que me rodeiam observando-os em silêncio do que falando e expondo a minha natureza!


PARA LER OUTROS TEXTOS DA AUTORA: ESTEFÂNIA BARROSO

ACESSE O BLOG: STEFF’S WORLD – A SOMA DOS DIAS

3 comentários sobre “Observar em silêncio é melhor que dizer algo

    1. Ficou muito bom mesmo né? Esse texto da Estefânia é muito reflexivo e muito bem estruturado.
      Ela me mandou esse texto e o outro que foi postado aqui mais cedo para que ambos fossem divulgados após uma chamada que eu fiz de recebimento de Novos Autores. Ia ser bem legal ter dois textos seus divulgados aqui também hein. Fica a dica 😆

      Curtido por 1 pessoa

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