Livro Proibido

Atrás de um montante de apostilas escolares e amontoados de folhas velhas, que toda vez que eu as olhava me jogavam num morro gigante de lembranças infantis solitárias. Empilhadas de forma vertical, diversas apostilas utilizadas traziam o meu nome e minha série. Um dia, ao entrar no quartinho dos fundos onde toda a bagunça que minha mãe juntara por anos consecutivos de vida, avistei atrás destes zilhões de lembranças desconfortáveis um livro de páginas amarelas faltando a contra capa e uma das orelhas, o nome que restara do que já foi um livro inteiro um dia era – A queda para o alto de, Mara Herzer.

Lembro-me como se fosse hoje do cair daquela noite. Esperei com que todos em minha casa fossem para suas camas sonharem com seus dias posteriores de glórias para que eu me entocasse debaixo do edredom de pelos para ler em meio ao calor excessivo e o ar extremamente abafado, intercalando uma pequena lanterna e um livro descosturado a primeira obra de temática LGBT que eu lera em minha vida.

Assim que dei início à leitura, deparei-me com as palavras do então deputado da época, Eduardo Suplicy. Imaginei que o livro seria algo importante para ter as palavras de alguém da política no início de um livro. Corri então para o que sobrara das últimas páginas e elas diziam: Herzer se suicidou meses depois da publicação do volume em 1982, aos 19 anos, tendo sido encontrado debaixo de um viaduto em São Paulo.

Naquela época, eu acordava e ia dormir pensando em suicídio. Bebia mais do que meus órgãos aguentavam e em todas as aulas logo pela manhã eu estava totalmente alcoolizada. Eu não compreendia sobre meus sentimentos e sentia um medo absurdo de pensar nas mulheres, de aproximar meus olhos de seus olhos ou mesmo relar sem querer minhas mãos em suas mãos de pele macia e de formas delicadas. Eu tinha a ausência de uma feminilidade que até hoje a carrego comigo, e lendo todas as linhas de forma a prender o fôlego na garganta eu sentia em “Bigode” aquilo que eu jamais poderia ser. A autobiografia de Herzer e a não aceitação de sua orientação sexual por parte de sua família e da sociedade a levou a ter uma vida conturbada e cheia de lacunas que jamais poderiam ser preenchidas. Lembro-me de ter o coração em saltos gigantes toda vez que eu lia a descrição de um sentimento inviolável e obscuro de modo solitário e introspectivo da autora ou quando ela narrava cenas de sexo com outras mulheres.

O livro todo foi um nó para mim, foi a primeira vez que li um livro tão rápido na minha vida de forma clandestina. Naquela época, ninguém podia sonhar sobre quem eu era e eu sempre ficava a me perguntar a cada novo capítulo, o que diabos aquele livro lgbt estava fazendo escondido entre as apostilas infantis. Quando o finalizei era dia, a hora do almoço se aproximava num sábado de muito sol. Os vizinhos socializavam na rua jogando suas bolas semiprofissionais coloridas nos portões de grades descascadas com tintas marrons e verdes. Não havia ninguém em casa naquele dia, a vodka gelava no congelador, meus pulsos estavam levemente feridos por uma lâmina seminova da noite anterior. Olhei pela janela por alguns segundos e observei todos aqueles adolescentes da minha idade, uma garota da qual eu suprima sentimentos de desejo percebeu a minha presença na janela, sorriu ao mesmo tempo em que acenava, gesticulando para que eu descesse para encontrá-la. Sorri de forma que se assemelhava a um sorriso amarelo, tímido e amedrontado. Fiz sinal de positivo com as mãos e desapareci da janela. Olhei para a capa do livro que estava rasgado pela metade e pensei: “Se eu fosse como o bigode será que eu teria tantas mulheres como ele teve na prisão ou eu sofreria eternamente pela falta de um amor que me suprisse de verdade antes de pensar em suicídio?”.


Este post faz parte da postagem coletiva e participam deste projeto os escritores: Lunna GuedesObdúlio NunesFernanda Akemi

11 comentários sobre “Livro Proibido

  1. Seus textos sempre intensos. Aliás, apenas pelo teu escrito, este livro já está na minha (quase infinita) lista de leituras.
    Me custa tentar entender a não-aceitação do afeto. Nunca me chocou a ideia de que duas pessoas possam se amar, independentemente do gênero a que pertençam. Lembro em um trabalho de educação artística escolar sobre o tema “amor” ter recortado cenas de beijos lésbicos (difícil encontrar em revistas na época) – a professora se chocou, chamou a minha mãe e ela rindo falou “Mas, a senhora pediu um trabalho de colagem e pintura sobre o tema amor, não sobre amor hétero. O trabalho dela está certinho.” E em casa, nenhum livro nunca foi proibido. Quando leio relatos como este teu texto, lembro que tenho muita sorte pela mãe que tenho.
    Beijos!

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      1. Exatamente ❤ Não entendo essa necessidade de certas pessoas quererem questionar e anular o amor das outras.
        Acho que boa parte das minhas professoras não gostavam da minha mãe heheh ela nem ia nas reuniões escolares para não arranjar muita confusão, pois questionava muita coisa desde essa questão do desenho, a questão do lápis “cor-de-pele” que ela sempre me explicou dizendo que “só se for cor de pele de gibi da turma da mônica” kkk
        Ou quando a professora reclamou das minhas leituras “impróprias” pra idade e minha mãe perguntou para ela se ela estava com preguiça de corrigir trabalhos e redações de uma criança questionadora kkk Quando eu tiver filhos, quero ser uma mãe exatamente assim!

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  2. Uau! Li seu texto num fôlego só. Não conheço essa escritora e fiquei sensibilizada. É foda essa situação de você não poder ser você devido a convenções. Oh mundinho de merda esse que vivemos né? Mas que bom que existe a literatura e ela nos salva. Sempre!

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  3. Li seu post, minha cara, com um turbilhão de coisas em mente. Me lembrei de quando escrevi lua de papel e que todos me diziam para não fazer isso com a minha literatura. Que eu seria taxada pelo conteúdo. E meu dilema era específico: eu só tinha teorias, nenhuma prática na pele e escrever sobre o que não é seu foi o meu maior desafio. Minha personagem não pensa em suicídio, mas se esforça para se calar e conter o que é sentimento na pele. Sofri com ela, por ela e por reviver o que meu primo vivenciou durante anos.
    Também me lembrei das vezes em que eu queria que a realidade chegasse ao fim por estar cansada de pessoas, seus julgamentos. Eu só queria viver o meu maldito luto e eles (conscientes de tudo que deve ser feito) queriam me dizer o que fazer no dia seguinte e eu não queria o tal dia seguinte.
    Que bom que existe a literatura e que ela se apresenta (como sagrado) para nós. Borges me salvou algumas vezes, tanto quanto Sexton e Campos, Dickinson e Sontag. Amém.
    bacio

    Curtido por 2 pessoas

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