Peça

A vida é uma peça de teatro muito bem montada. Daquelas que se você errar algo, perde um ou dois espectadores. Se confrontá-los será julgada(o) da forma mais ignorante possível. O script é feito pelas mãos de uma sociedade doente, que te observa desde criança, antes mesmo de você dizer uma palavra. Não os deixe ver que está com medo, usam isso contra você, isso e todas as outras vulnerabilidades que te faz ser humano. Quando as cortinas se fecham não terá mais nada, apesar de alguns permanecerem ao seu lado não poderá contar com eles de verdade. Nos dão a opção de lidar com um teatro cheio. Cheio de gente que não se importa, estão ali fazendo mais um papel, fingindo que se importam, sendo que quando todos forem, elas irão também. A gente tem sempre medo de pular uma fala ou rasgar aquele papel estúpido e sentar pra escrever outro. Então suporte esse peso nas suas costas e essa dor feita pela pressão em sua garganta. Só pare. Olha ao redor, todos seguindo pelo mesmo caminho da mesma maneira, cada um exercendo o seu personagem. Sabendo suas falas, seus gestos, seus movimentos, a quem recorrer, com quem falar, em quem se aproximar.

Quantas vezes essas pessoas não choraram envoltas pela própria realidade quando o teatro se esvaziou? A gente tem desses sentimentos que nos levam na direção contrária dessa ficção fajuta. A realidade é diferente, todos são sufocados, uns mais forte que outros. Às cinco da manhã a minha pele negra vai pra faculdade, enquanto a pele negra de vários homens dormem na esquina, envoltos por sacolas com latas, papelões e lixos recicláveis,  esperando. Esperando por uma nova realidade, do outro lado da estrada na coleta seletiva. Entende. Enquanto me olham e aplaudem, sem nunca me enxergarem, renegam cada um deles. Cada um com suas dores. Essas pessoas que acham que sabem, vão indo embora e teremos que lidar com aquelas cadeiras vazias. Remodele o espaço, diminua o número de cadeiras, arranque a cortina. A vida se torna real quando a gente para de encenar. A roupa do personagem não cabe mais, os sapatos doem e as falas são desconexas. Isso faz parte, não há como protagonizar sentimentos para sempre, uma hora explodem e deixam o teatro em chamas.


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