Carta para meu autor favorito

Buk,

Minha cueca está rasgada na bunda e o tecido da cadeira de plástico faz suar o buraco mais escuro. Há dias venho acordando cedo pra caralho para produzir coisas, editar coisas e falar com pessoas que não conheço. Todo santo dia eu vejo Carolina se vestir de forma apressada entre 6:50 e 7:10 da manhã, enquanto eu tenho os raios de sol inundando minha janela que nunca é fechada durante a madrugada. É sempre o mesmo ritual de calejar os dedos martelando em teclas pequenas, encarar a página em branco, olhar pela janela, obsevar o topo das casas e dos prédios, ouvir os motores arrancando de lá pra cá e beber dúzias de cervejas pretas vencidas.

Ontem foi um dia de andanças sabe, fui até a faculdade fazer minha rematrícula do último semestre, senhor mal posso acreditar que até o fim do ano estarei livre das obrigações educacionais. Se você soubesse como eu odeio ter que passar pelas grades daquele portão cinza, me deparar com o cheiro de hospital pelos corredores, sentar em fileira dentro de uma sala quente e encarar a lousa preta e as paredes brancas e velhas. Eu simplesmente odeio ter que me calar e ouvir aquelas aulas chatas, ter que ler aqueles textos mais chatos ainda. Toda vez que eu tenho que pegar o ônibus e o metrô lotado todo dia e encarar as filas nas catracas, a única coisa que eu penso é em vinhos quentes e baratos e em drogas para entorpecer meu cérebro e descansar meu corpo.

Depois da faculdade eu fui dar uma volta pelo centro da cidade. Buk, se você pudesse ver aí de cima a quantidade de corpos infantis e infantojuvenis dormindo em calçadas, cheirando cola na porta da igreja da Sé, comendo comida direto do lixo ou pedindo esmolas na porta das padarias e restaurantes com recém-nascidos no colo. Cara, não é brincadeira a quantidade de gente que eu vi ontem caminhando pelas ruas. Fico a pensar como diabos estaremos até o final do ano, nem é preciso pensar num período maior de cinco ou dez anos, basta que pensemos em amanhã, literalmente. E eu olhava para as outras pessoas que por ali passavam e elas nunca olhavam nos olhos dessas crianças, nunca paravam para observar as mãos revirando o lixo, sempre se desviavam dos degraus da igreja e todas elas saiam felizes e contentes dos comércios com seus lanches, almoços, álcool e doces empunhados nas mãos. Isso é surreal cara, surreal meu velho.

Graças a deus você está morto e talvez esteja numa melhor, talvez bem melhor do que eu que acordo cedo todo dia, mesmo estando de férias ou caminho pelas ruas pensando porque raios eu escolhi fazer Serviço Social. Eu, como Assistente Social, observo muito mais do que qualquer um no planeta as questões de vulnerabilidade social e como se não bastasse ter escolhido essa profissão, eu ainda sou escritora de crônicas da cidade cinza.

Querido Buk, esteja aonde estiver espero que não esteja usando cuecas rasgadas ou tomando cerveja vencida às 07:00 da manhã.

Com amor, Garota sem fundilhos.


Participam deste projeto os escritores

Lunna GuedesMariana GouveiaObdúlio Nunes

8 comentários sobre “Carta para meu autor favorito

  1. Aqui pela baixada santista também percebo um aumento da população de rua, principalmente quando pego o VLT e passo por dentro do túnel onde muita gente fica abrigada num espaço pequeno entre os trilhos e as paredes. Não entendo como alguém passa e não repara.
    Como sempre, ótimo texto!

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  2. Que linda e dolorosa percepção do mundo e da rotina que nos suga e nos condena a uma mediocridade enquanto há um mundo em ebulição para ser conhecido e traduzido em outras tantas precisas e perplexas palavras. Adorei seu texto!

    Curtido por 2 pessoas

  3. Por morar no centro venho observando o crescer desenfreado de pessoas nas ruas e constato o número de pessoas muito mas muito jovens dormindo ao relento e vivendo de migalhas alheias e do lixo. Isso dói demais e claro, assim como você, capturo tais cenas e personagens para transformar em histórias fictícias. Essas doem menos. Ah! Em tempo, Buk também é um dos meus escritores preferidos. Adoro personagens marginais!

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