Borboletas na chuva de, Mara Vanessa Torres

Chove forte. Gotas autoritárias despencam do céu sem bater na porta ou enviar carta de apresentação. Tudo pesa. O ar, a própria respiração, a cabeça, o corpo, a alma. Acima de tudo, a alma; fogo fátuo de nossa crença que derruba sobre os ombros uma tonelada inteira e tudo o que podemos fazer é movimentar as pálpebras de cima para baixo em círculos eternos de paz. Chove do lado de dentro da minha casa. Gastei horas na rua vagando em busca de soluções enquanto o sol reinava quente, auspicioso. A forte luz ofuscando a visão, clareando ideais que nem eu mesma sabia que tinha, apontando caminhos. As estradas já iluminadas são muito mais fáceis de seguir do que empreender uma busca por lamparinas em armazéns velhos, mesmo que essas lamparinas esquecidas produzam uma luz própria, alimentada ou apagada por você.

O sol do lado de fora, a chuva torrencial aqui dentro. Ainda assim, entrei pela porta da frente jogando a bolsa vermelha na poltrona ao lado da janela, tirei as roupas amaciadas pela alegria da rua e emergi nas profundezas da chuva. Impossível enganar a si mesmo – ainda que tudo possa mentir para você – quando existe um objeto cercado de ferrugem e brilho, mirando sem deixar rastros. Seus olhos, em parceria com a sua mente, podem criar realidades as quais você deseja ou esteja preparado, mas o espelho não. Ele não vai te satisfazer só porque você assim o quer, ou não vai te apontar um dia de verão em uma noite chuvosa de inverno. O temido reflexo mostra o que é real para o universo, mesmo que este universo não abarque o seu mundo.

Continua chovendo. Água pesada se precipita sobre meus cabelos, correndo sôfrega por todo o corpo. Tudo pesa, tudo perde o sentido. A única coisa que vejo são imagens projetadas pela minha mente, um turbilhão confuso de cenas do cotidiano. Vejo papéis, livros empoeirados, lençóis espalhados sem zelo pela cama, janelas abertas. Ouço os batimentos cardíacos do relógio, armários abertos sem cuidado, campainha do telefone, barulho ensurdecedor de chaves, portas sendo trancadas. Repentinamente, decido abrir os olhos e abandono minhas imagens. A segurança de ontem se transformou na opressão de hoje. Com a visão turva preenchida por gotas, vejo borboletas multicoloridas voando no ar. Elas formam três duplas de tamanhos semelhantes e cores que lembram letreiros luminosos. O tipo de imagem que abraça a noite escura, fosforescente, repleta de dégradé com misturas de tons vermelhos, amarelos, verdes e azuis, provocando a fusão com cores secundárias. As borboletas voam através da chuva, não se desestabilizam, não perdem a vontade, não deixam as asas pararem de levantar voo. Seguem sempre para o alto, para cima, para o limite que não é o céu. As asas pesadas, dor para subir, muita força empregada, mas elas não fogem. Pelo contrário: as borboletas e seus pedacinhos de asas sobem, sobem, sobem, sobem, sobem…

Ainda chove aqui dentro, mas tudo vai se aquietando. Pausadamente, desligo o chuveiro e as gotas somem. A única prova de que elas realmente estiveram presentes é o meu corpo molhado. E, antes do esquecimento, preciso dizer que as borboletas fosforescentes no azulejo, mais vivas do que sua matéria prima poderia permitir, continuam subindo.


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