A volta às aulas e a ansiedade

A volta às aulas e a ansiedade

Depois de dois meses longe da habitual rotina, hoje voltei oficialmente para a faculdade. Acordei perto das oito da manhã com o céu cinza e pequenas gotas de chuva. Eu tinha dois contos para revisar e dois módulos da minha especialização em álcool e drogas para fazer. Levantei, desliguei o ventilador, fui até o banheiro e me deparei com os tapetes todos embolados: o maldito gato havia cagado nos tapetes! Os botei pra lavar, mas antes, trucidei o gato com meu mau humor matinal. Me recompus e voltei para o quarto-escritório. Enquanto o computador ligava, rolei os dedos entre as redes sociais para ver o que estava acontecendo. Não sei por que faço esse mesmo ritual toda manhã, abrir o Instagram, verificar quem deu um coração nas postagens, deixar um coração nas mensagens do direct, contabilizar a quantidade de perfis que visualizaram os Storys…

Todo santo dia o mesmo ritual. Acho que faço isso, mesmo odiando às vezes, porque o meu perfil é mais do que uma extensão de uma realidade ilusória, gosto de tratar meu perfil como algo profissional e tento fazer com que ele cresça de modo gradual, atraindo pessoas que reconheçam no meu trabalho, mais do que fotos e textos como todo o restante do mundo, gosto de deixar à mostra a verdade como ela é e como eu realmente sou, isso faz com que eu mesma mantenha meus pés no chão e me impulsione a não desistir de mim como escritora e principalmente, como ser humano. Ainda pela manhã, acabei não fazendo nada do que havia planejado, quando dei por mim, já eram quase três horas da tarde e eu estava com mais de dez abas de páginas abertas, reformulando toda a estrutura do blog, pesquisando templates, criando designers, escrevendo textos, mandando mensagens para escritores, tratando fotos e sentindo de forma gradual, a mente e o coração acelerar.

***

Carolina chegou do trabalho, me deu um beijo molhado e atirou-se na cama fazendo a mesma coisa da qual eu havia feito pela manhã de forma ritual, rolou os dedos em direção a perfis, encheu algumas pessoas de corações e comentários, contabilizou o retorno e rolou, rolou, rolou… Confesso que quando a vejo fazendo isso, me causa uma enorme irritabilidade. É a busca incessante por um retorno que nunca virá. Por mais que ambas usemos as redes sociais como uma atividade de trabalho, isso acaba nos matando aos poucos da mesma maneira que nos separa da realidade que a vida fora das telas nos proporciona. Quando eu olhei para o relógio novamente, eu já tinha engolido o almoço que Carolina havia preparado. Engoli o bolo de chocolate com sorvete, não me concentrei na série, nem ao menos disse: eu te amo princesa, obrigada pelo almoço. A única coisa que eu tinha olhos, eram para o ponteiro dos relógios. Contava minuciosamente os segundos, contabilizando o que ainda havia para fazer. Faltava terminar de me vestir, carregar o Ipod, separar alguns livros e imãs, escrever dedicatórias, ler o texto pra aula, mandar e-mails, terminar de arrumar o blog, pensar na postagem da noite, carregar o bilhete, imprimir uns documentos e encontrar com a Gabi na estação Ana Rosa às 18h40min.

***

Sai apressada com medo de chegar atrasada no metrô, odeio chegar atrasada para encontrar alguém, mais do que qualquer outra coisa nesse mundo. Fiz tudo o que tinha pra fazer antes de pegar o ônibus, por sorte sentei no último banco vazio do Jardim Arpoardor. Fui lendo o livro de Gabriela Rocha, Gabyanna negra & gorda, enquanto ouvia rap nacional. Desembarquei na Avenida Vital Brasil, e peguei o metrô linha amarela em direção à estação Paulista. Eu trazia os olhos doloridos, a respiração palpitante, as mãos suadas, a mente fervilhando… Tentei ignorar tudo e intercalar os textos da faculdade que estavam em PDF no celular com os segundos dos ponteiros. A cada estação eu pensava: vou chegar atrasada, vou chegar atrasada, preciso beber alguma coisa antes da aula. Eram 17:35 quando desembarquei no meu destino. Algumas pessoas me olhavam, umas traziam os olhos curiosos, outros os olhos tristes. Olhei para o celular e pensei: que horas eu havia marcado com a Gabi no Ana Rosa? Abro o Instagram e rolo até nossa última conversa. Caralho, o horário era às 18:40 e eu corri horrores achando que era às 17:40.

As pessoas passavam como um grande manada, era hora do Rush, e a Paulista é o pior lugar do mundo para se estar nesse período.

Minha boca estava seca. Meu corpo estava dolorido. Eu passei a andar como se os parafusos ainda estivessem no meu tornozelo. A falta de ar aumentava. Um pequeno tremor nas mãos começava. Tentei achar algum banco vazio para poder sentar e ler o texto da aula de hoje, todos estavam cheios de pessoas que não estavam indo a lugar nenhum e sem pressa de nada, apenas pessoas rolando seus dedos em telas dando corações a espera de algum milagre. Passei quase uma hora de pé, equilibrando entre o livro da Gabriela, uma mochila cheia de livros e imãs fotográficos meus, o celular, e o coração com pequenas pontadas incessantes.

***

Próximo ao horário combinando, me dirigi ao encontro da Gabi. Ao seguir o percurso, me deparei com muitos pessoas, muitos corpos, muitos olhos e principalmente, com muito perfume com cheiro de caramelo. Perfumes doces como marshmallows, besuntados em açúcar de confeiteiro. Os cabelos, as nucas, as barbas, as axilas, os pés, as virilhas e os cus. Toda a humanidade estava coberta de um cheiro doce pra cacete. Toda a humanidade rolava os seus dedos finos, grossos, com esmalte ou sem por telas, e seus semblantes eram como animais empalhados pregados em paredes de madeira. Elas não tinham expressão, não sorriam, não piscavam, não desviavam, não pediam desculpas, não saiam das filas, não faziam mais nada além de terem suas mãos fervidas pela bateria dos celulares.

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Já na estação Brigadeiro, me olhei no reflexo da porta por alguns instantes, o que vi de mim, era uma pessoa segurando uma barra de ferro com as mãos pingando em suor, o rosto úmido, o corpo curvado, a respiração entalado na garganta, as pernas trêmulas, os olhos vermelhos e o coração quase saltando para fora da camisa. Eu não me reconhecia, há mais de um ano eu não ficava desse jeito. Eu olhava em volta e tudo enegrecia, todas aquelas milhares de pessoas me deixavam com uma raiva descomunal, senti por diversas vezes uma vontade absurda de cortar todos aqueles corpos ao meio com um machado gigante. Eu não conseguia respirar, tudo ficava turvo e a mente produzia uma enxurrada de pensamentos aleatórios numa fração de milésimos de segundos. Por um instante, pensei que ia morrer no meio daqueles dedos dando corações sem obter nenhuma resposta. Com muito esforço encontrei a mana, entreguei um de meus livros, segui pra faculdade com um ódio gigante no peito. Ao chegar à sala, eu não sabia como agir, não sabia se sorria, se chegava de forma silenciosa e acanhada, se abraça e beijava alguém, o fato é que: eu me senti um peixe fora d’água, deslocada e muito sozinha no meio de todas aquelas pessoas conhecidas. Tentei disfarçar indo ao banheiro, me olhei no espelho por alguns instantes e quis derramar algumas lágrimas. Eu me sentia insegura, parece que eu tinha voltado à época da minha adolescência, quando eu me subestimava todo o tempo e sempre me sentia feia, gorda, muito masculina e depressiva. Tentei colocar nos pulmões um pouco de ar, mas parecia que todo o ar da atmosfera havia sumido. Pus as duas mãos sobre a pia, olhei em volta e não tinha ninguém ali, além de mim. As pernas bambearam e o coração pulsou tão forte que eu achei que estava sofrendo um infarto. Talvez essa era a hora, pensei: um adeus a mim mesma de forma solitária e dolorosa. Pensei nos livros na mochila e desejei que ao menos as pessoas lembrassem de mim pelas minhas crônicas, que por sinal, são um enorme desabafo de mais de vinte anos preso na garganta.

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Aos poucos, toda aquela tempestade foi normalizando e felizmente, aquela não era a hora. Voltei para a sala e cumprimentei algumas pessoas, como se nada tivesse acontecido. Bebi quase uma garrafa inteira de água, chupei uma bala, tomei coragem e respondi a pergunta da professora, quando ninguém mais se propôs a abrir a boca. Ao final da aula, mostrei o meu trabalho artesanal e artístico em forma de livros e fotografias para meus amigos. Passei o olho no mesmo morador de rua que estava exatamente no mesmo lugar que ele sempre ficava, antes mesmo de eu sair de férias. Me despedi do Gilson no metrô. Desci na estação da Luz e avistei uma mulher negra tentando descer as escadas fixas com um carro de lixo gigante. Nos olhamos por uma fração de segundos. Senti o velho cheiro de pão de queijo com gosto de isopor. O aroma da água de salsicha do Monster Dog. Peguei um carro na direção do Butantã. Voltei escrevendo como eu sempre fazia. Sentei nos bancos para terminar esse texto, já fazem quase uma hora. Entreguei um marcador de páginas meu, para um homem que esperava sua esposa. Ele me agradeceu. Ela me olhou furiosa. Agora eu sinto um pouco de frio e uma leve dor de cabeça. A ansiedade foi diminuindo de forma gradual, a cada linha escrita dessa história.

Fim.

4 comentários sobre “A volta às aulas e a ansiedade

  1. Que intensas suas sensações. Ao mesmo tempo em que me identifico quando em meio à multidão, penso em como você continuará vivendo no deserto gigante de concreto.
    A parte dos dedos deslizantes clicando e esquentando com o calor das baterias, me fez imaginar como está o rush no metrô paulistano. Talvez saiamos da multidão notoriamente fria e indiferente ao redor para outra online, que disfarça melhor. A idéia de sempre olhar a caixa de mensagens esperando “um milagre”, foi bem percebida. A situação descrita me desesperou. Bem escrita e descrita.

    Curtido por 1 pessoa

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