Meu corpo nu e o espelho em frente a cama

Coloquei um espelho grande em frente a minha cama no ano passado. Já fazem quase um ano que ele está ali, parado, estático, me medindo. Minha escrivaninha, da qual utilizo como local de trabalho e criação de projetos, fica quase em frente ao espelho. Quando me sento pela manhã para trabalhar, é possível avistar uma parte do meu corpo nele. Poucas foram as vezes nesses quase doze meses em que eu parei para me olhar de fato.

Sempre que coloco minha cara em frente ao espelho, nunca é para me olhar e me apreciar, eu sempre estou cavucando meu rosto para estourar alguma espinha que mal nasceu ou estou dizendo a mim mesma: “Que pele horrível”. “Como tô velha”. “Aff, como estou feia hoje”. O fato é que… hoje pela manhã, depois de quase um ano, terminando de ler o livro da Gabriela Rocha, Gabyanna Negra e Gorda que retrata perfeitamente a questão da mulher negra e gorda, não só no Brasil, mas no mundo todo de um aspecto geral, por alguns milésimos de segundos o reflexo do meu corpo passou nu em frente ao espelho enquanto eu trocava de posição na cama para continuar a leitura de um modo mais confortável. De repente, após ver aquela imagem de um corpo no espelho pensei: “Hum, belo corpo”. Virei de lado, e tentei continuar a leitura. O fato é que, só fui me ligar que aquele belo corpo era meu um bom tempo depois. Afinal, em vinte e sete anos, nunca tive o hábito de me olhar nua em frente ao espelho. Carolina sempre diz o quanto meu corpo é lindo, isso e aquilo, mas eu mesma, nunca tinha achado nada disso.

Hoje, finalizando a leitura do livro da Gabriela Rocha, eu voltei por alguns segundos na antiga posição e fiquei olhando meu corpo em frente ao espelho. Cara, por que diabos a gente vive se autoboicotando o tempo tempo? Por que sempre temos tempo para os outros e nunca pra gente? Por que a gente vive se achando feia? Por que caralhas a gente nunca põe pra fora tudo aquilo que a gente tá sentindo e fica preso na garganta como uma bola de pelos? Enfim, acho que ter colocado esse espelho em frente da cama faz todo o sentido, agora que eu terminei de ler Gabyanna negra e gorda.

17 comentários sobre “Meu corpo nu e o espelho em frente a cama

  1. Interessante como cultivamos uma miopia perceptiva a respeito de nós mesmos. Conhecemos bem o outro, as vezes em detalhes mínimos, mas somos invisíveis ou distorcidos para nós mesmos. Sua narrativa hábil me recordou um episódio da minha adolescência,certo dia eu despreocupadamente me enxugava depois de um banho, então depois de desembaçar o espelho com uma das mãos, cai então num estado de encantamento, me peguei fascinado ao encarar a mim mesmo no espelho, não reconhecia o castanho dos meus próprios olhos e o desenho do meu rosto, eu literalmente não me reconhecia e isso foi chocante, pois percebi que a imagem mental que tinha de mim mesmo estava muito longe de quem eu de fato era. Obrigado pela excelente leitura e mais uma vez parabéns pela habilidade, seus textos sempre se superam na maestria.

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    1. Jonatas, muito obrigada pelos elogios ao texto.
      É gozado esse lance de não saber de fato quem somos ou que aparência temos. Não possuimos o costume de nos olhar com tempo, nos apreciar, nos focar nos detalhes, nas nuances… Estamos sempre nos olhando de soslaio ou através do olhar do outro.
      Fico feliz que você conseguiu enxergar teus belos olhos castanhos e deslumbrar as formas do seu rosto.

      Tenha uma ótima noite e é sempre muito bom te ter por aqui. Grande beijo!

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      1. Creio que em partes é por embalarmos os outros em ideais e expectativas de tal forma que as vezes vemos beleza que nem existe, e a nós mesmos julgarmos de maneira tão crua que cada mínima imperfeição é ampliada de forma exponencial, como você muito bem descreveu no caso da espinha. Talvez só percebamos a beleza quando nos dispomos a realmente enxergar.
        Sobre os olhos, obrigado, é curioso, mas raras vezes percebi beleza em meus olhos, sabe? Facilmente me encanto com os olhos de outras pessoas, minha filha por exemplo, tenho por certo que ela puxou os olhos da mãe, mas minha esposa insiste que ela tem os meus olhos.

        Seus textos são sempre uma leitura prazerosa, enriquecedora e não estou exagerando. Você consegue me fazer sentir como se fossemos amigos a anos, estivéssemos tomando um café e você compartilhasse algo, fico admirado com a cumplicidade que você tem a habilidade de inspirar. Assim é sempre bom voltar.
        Boa noite, abraço.

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      2. Quem sabe a vida não nos proporcione tomar um café e trocar confidências em forma de poesia um dia desses, não é mesmo? Seria um imenso prazer poder desfrutar de uma boa conversa!

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    1. Oi César. A ideia é essa mesmo ser grande, pois é uma descrição continua, não dá pra descrever uma cena separando ela toda em parágrafos alternados. Mesmo assim, muito obrigada pelo comentário, amigo!

      Tenha uma ótima noite!

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