Gabyanna Negra & Gorda, de Gabriela Rocha

Gabyanna Negra & Gorda, de Gabriela Rocha

Era a primeira vez em meses que eu tirava o dia de folga só para mim. Me permitir ficar até depois do meio-dia na cama a folhear páginas e a transcorrer por histórias que eu nunca pude escrever. Ao escolher Gabriela Rocha, para saciar minha fome de leitura, eu não imaginava que me olharia diferente após o termino de um livro escrito por uma mulher negra.

Gabyanna Negra & Gorda, vai muito além de uma escrita tradicional. Não é mais um livro qualquer com protagonismo feminino, é uma autobiografia que te pega pela mão e te coloca no berço das reflexões subjetivas do seu próprio ser e te convida a observar todas as lacunas sociais que ao longo dos séculos, foram preenchidas por um único estereótipo, por uma única alternativa e, principalmente, por um único padrão de pertencimento e cor.

Gabyanna é uma mulher negra e gorda que transcorre pela vida em busca do tão inalcançável e superestimado: amor! Como todos os seres, Gabyanna busca nas suas relações afetivas, encontrar alguém que a ame da maneira que ela é, e a possibilite de criar uma família. Porém, se para muitos este processo é algo natural e fácil, quando se é mulher, negra e gorda, tal desejo não se torna fácil, ou mesmo possível. A mulher negra, desde que o mundo possui sua formação histórica, é preterida em todos os sentidos, termos, palavras e conotações. A mulher negra é vista como aquela com que os homens se deitam, fazem juras de amor entre quatro paredes, mas que a invisibiliza na hora de assumir para o mundo. Nenhum homem quer andar com uma mulher negra de mãos dadas na rua ou a apresentar para a família e amigos, mas todos querem poder comer uma mulher negra, porque ela foi sempre estereotipada como: boa de cama, fogosa, de carnes fartas, fácil, serviçal e por aí adiante…

Deixei me envolver tantas vezes. Continuo sozinha e carrego duas características marcantes: o corpo e a cor da minha pele. Estou entre a porcentagem de mulheres negras solitárias, quase condenada a um celibato forçado.

Então, quando a autora Gabriela Rocha conta seus percalços nas tentativas frustradas de encontrar o amor de sua vida, ela não apenas está escrevendo sobre o amor, mas ela escreve para questionar sobre o que de fato é o “amar”. Uma vez que o amor provém da aceitação, do cuidar, do amparo, da lealdade, do dividir, da confiança… por quê o amor, ainda é tão seletivo e deixa de ser um processo natural?

Entre os aplicativos de relacionamento, as inúmeras viagens ao redor do mundo, e a mudança do Brasil para Noruega. Gabyanna ainda enfrenta diariamente o olhar opressor e repressor de uma sociedade que não aprendeu como lidar com a força, potencialidade e inteligência das mulheres, ainda mais se for uma mulher negra e gorda.

A gordofobia está em todo lugar. Na catraca do ônibus, no tamanho da poltrona do avião, nos olhares das pessoas enquanto uma gorda caminha pela rua, na acusação de preguiçosa ou da incapacidade de cuidar do corpo.

Como bem sabemos, o racismo é estrutural e a escravidão ainda não acabou. Eu, como mulher negra e fora dos “padrões estéticos sociais”, pude entender mais a fundo como é ser como sou. Como é sair às ruas todos os dias e ter que me autoafirmar, ter que todos os dias provar o meu valor, ter que dar explicações do que eu tenho e me justificar de que modo eu consegui, ter que ir pra faculdade de maioria branca e ser encarada nos corredores, ter que entrar num restaurante e sentir todos os olhares se voltando para mim, ter que pegar o elevador no meu próprio condomínio e ver os vizinhos não querendo entrar no mesmo elevador que eu, ter que ir ao shopping ou mercado e sentir um segurança também negro, fungando no meu cangote só esperando eu roubar alguma coisa pra ele ter motivos para agir, ter que tentar sobreviver através da minha arte, vendendo meus livros e disponibilizando minha força de trabalho e as pessoas sempre preferirem comprar com homens ou escolherem homens para fazer a mesma coisa que eu faço.

Quanto mais escuro, mais chance de vir a sofrer com os ataques da sociedade.

Ler o livro, Gabyanna Negra & Gorda, é muito mais do que passar os olhos por páginas e deixar com que a história ali contada seja só mais uma, que você esquecerá após a leitura do último capítulo, é simplesmente olhar-se no espelho e indagar a si mesmo: Quem sou eu e porque eu não me aceito como sou? Será que o problema está no mundo ou o problema de fato sou eu? E se o problema sou eu, então o que ainda faço aqui neste mundo, é melhor com que eu parta, não?


Eu recomendo fortemente a leitura desse livro a todos vocês e espero que após a leitura, vocês também possa se olhar de modo diferente no espelho da mesma forma que eu me olhei. Para ler a obra e adquirir um exemplar só seu —> Gabyanna Negra & Gorda

Assista ao vídeo e conheça melhor a autora Gabriela Rocha, e saiba como foi o processo de criação do livro: Gabyanna Negra & Gorda.

Gabriela Rocha

3 comentários sobre “Gabyanna Negra & Gorda, de Gabriela Rocha

  1. Maria, me ajude!

    Quando fico sabendo sobre qualquer manifestação artística que envolve diretamente uma questão social ou política, sempre me pergunto: Na hora de analisar o valor/qualidade de uma obra, qual o peso deve ser dado a crítica social/política?

    Quem sabe uma mulher socialmente ativa e politizada como você possa me ajudar a entender.

    Já estava com saudade de ler você! 😀

    Curtido por 3 pessoas

    1. O peso empregado depende muito. As vezes você pode encontrar um livro que trata estas questões mas o livro num todo não atender as suas espectativas. Acho que pesar questões como estas vai muito além só do cunho social ou político, tem que estudar a obra num todo. Porém, livros que abordam questões sociais são sempre muito bons. Agora questões políticas vez ou outra são bem tendenciosos, dependendo é claro, de quem os escreve.

      Curtido por 1 pessoa

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