segunda-feira nada morna

Segunda-feira nada morna

Uma massa grossa de ar quente paira no ar transpingando do aglomerado de corpos. Filas e mais filas. Pessoas cabisbaixa com seus smartphones sondando algo menos desprezível para curtir no Facebook. Ao meu lado uma mulher branca, loira, na faixa dos quarenta anos, puxa em direção ao corpo sua bolsa, após eu esbarrar nela. Me olha assustada como um pardal ao despencar do ninho. Respiro uma massa quente, úmida, humana e, apenas sigo meu caminho.

Burlo muitos passos. Desvio de muitos olhos. Hoje existe gente demais observando meu cabelo, observando minhas roupas, observando o modo como eu sento de “pernas abertas – quase arreganhadas”. Todos os olhos se voltam, enquanto eu apenas desejo uma invisibilidade absurda. As filas crescem. Os dedos rolam de forma incessante nas telas. Não há sorriso algum nos lábios humanos. Não há reação sobre coisa alguma. Todos parecem cães sedentos por carne despossuidores de cérebros.

Um casal com deficiência visual anda em direção oposta as enormes filas. Por um instante, os olhos não são meus, agora os olhos que antes cobriam meu corpo, olham de forma agressiva para o par de olhos brancos e cinzas, bengalas e passos curtos em busca de caminho livre em direção a sorte. Centenas de olhos torcendo por uma tragédia. Nenhuma alma disposta a estender um braço.

Engulo a saliva já seca e passada, de um modo ardido. Tento ao máximo respirar antes da chuva banhar as calçadas e lonas de bar. Um mundo inteiro berra dentro de mim, a tal ponto de fazer com que eu me sinta ainda mais estrangulada pela violação do dia. Dos olhos. Das filas. Do calor. Dos corpos. Da vida.

A aula foi um porre. Apenas mais um mormaço quente dentro de uma caixa de paredes cinzas. O metrô na volta pra casa extremamente lotado. Um livro ruim na mochila. Dor no pescoço e nos pés.

Hoje eu vi muitas pessoas negras como eu, com tipos e formas únicas, que aos meus olhos, eram demasiadamente encantadores. Senti vontade de conversar com um por um, mas todas essas pessoas negras, traziam vassouras, lata de lixo, dois ou mais filhos e esmolas: em ambas as mãos.

Às vezes eu me pergunto: por que é tão difícil escrever sobre a realidade e tão fácil escrever sobre o amor, sem de fato amar?

8 comentários sobre “Segunda-feira nada morna

    1. Realmente. A maioria sempre opta pelo mais fácil. Dá menos trabalho né, então é assim que a humanidade segue. Eu prefiro escrever sobre a realidade do que escrever sobre o amor. A realidade é difícil e isso é o o que eu sou!

      Seja muito bem vinda e volte sempre que seu tempo lhe permitir.

      Tenha um ótimo dia.

      Curtir

  1. A realidade as vezes é tão crua que o romantismo quase parnasiano parece mais atraente. Perceber as misérias humanas, e não falo de uma questão econômica, de como vamos nos isolando e vendo cada vez menos, nos fechando em casulos de indiferença, é chocante.
    Parabéns pelo texto, você construiu uma experiência sensorial quase palpável, além das mudanças de perspectiva, sem falar de como conduziu os sentimentos de aflição(confesso que minha particular experiência com ambientes como este me deixaram ainda mais “sufocado” ao colocar-me em seu lugar), indignação e ansiedade. Mais uma demonstração da sua incrível habilidade descritiva. Concordo com Leonard Olivier, você se supera a cada texto.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Parece que dá para sentir o que você sentes, os ambientes em que passa. Como se eu pudesse estar no mesmo navio de seus pensamentos contados. Imagino se um dia você puder sair deste roteiro subterrâneo, paulistano, poluído, corrido, lotado e cinza, e nos banhar com outros ares, outros céus, outros olhares teus e sobre ti.
    Você tem escrito cada vez melhor.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Leonard, você me deu uma ótima ideia. Escrever sobre outros ares, porém, por mais que eu escreva sobre os outros tantos lugares do qual visitei, meus textos sempre focam nos dias cinzas, problemas sociais e feridas que ninguém quer curar. Mas irei colocar os neuronios a recordar de viagens passadas.
      Álias, sempre muito bom te ter por aqui rapaz!

      Curtido por 2 pessoas

Comente sobre isso

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s