Coletânea Literária

Cabe a mim resistir

Eu, mulher preta desde nascença,
carrego comigo impressões do tempo em meu rosto.
Carrego também em minha alma as marcas das minhas ancestrais que sofreram no tronco,
que sofreram nas mãos dos senhores estupradores a quem eram obrigadas a servir as mesas
e também as suas camas.

Sou rotulada.
Carrego em mim rótulos de uma sociedade escrota machista racista.
Querem que eu sempre sirva.
Querem que eu sempre esteja na margem.
Sempre esteja disposta a me deitar com qualquer um.
“Seu corpo é quente eles dizem” e querem me provar e depois descartar
para voltarem para suas esposas ou namoradas brancas.

Me recuso.
Sou livre ainda que o sistema me limite.
Sou livre para transar com quem eu quiser, se eu quiser.
Luto todos dias para sair da margem e conquistar lugares que a mim
ainda são negados, seja pela cor ou gênero.

Luto dia após dias para que as correntes não voltem para os meus pés
e mãos, nem as mordaças à minha boca.
Resisto ainda que a sociedade escrota, racista e machista tente me parar.

Resistir é o que cabe a mim.
Força é o que preciso ter desde sempre para sobreviver nesse mundo perverso.
Ainda que eu fique prostrada e cabisbaixo em alguns momentos, logo tenho
que me reerguer, fazer do cansaço força e continuar batalhando contra toda
merda que quer me fazer desistir.
Resisto.

Autora: Renata Leão


Renata Leão, 25 anos, capixaba, licenciada em geografia pela UFES. Escreve diários desde 2009, tendo a escrita como refúgio. Começou a postar textos em julho de 2018.


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