Coletânea Literária

Uma mulher, negra e gorda

Nascida no fim da década de 70 num bairro de classe média de Brasília, descendência de pais negros, Gabriela veio ao mundo sem saber direito o que a esperava.

Nasceu em uma família considerada sólida, composta de pai e mãe, funcionários públicos que fizeram todos os esforços para que ela frequentasse as melhores escolas, fizesse curso de inglês, esportes, etc.

Na pré-adolescência Gabriela se considerava uma menina “normal”, porém com o tempo passou a observar ao seu redor que algo era diferente, ou que ela era diferente. Na escola por exemplo, era uma das poucas meninas negras, no curso de inglês e nas aulas de natação também e, portanto, não tinha referência nesses ambientes. Só conseguia “se ver” em reuniões de famílias e nas rodas de samba que frequentava com seus pais.

Com o tempo percebeu que não tinha muito assunto com seus colegas de sala. Enquanto depois das férias seus amigos contavam sobre a 10ª vez que tinham ido à Disney, Gabriela só ouvia e não se sentia confortável em contar que “só” tinha ido de carro com seus pais pra Salvador, São Luís ou até mesmo tinha ido visitar sua família em uma comunidade periférica no Rio de Janeiro.

Mas Gabriela não se sentia inferior, pelo menos conscientemente, simplesmente seguia e fazia o que tinha que fazer, afinal tirar boas notas era algo que sua família exigia.

Ela observou também na adolescência, que na escola quando pares eram formados para a festa junina, ela não tinha um par que queria dançar com ela na apresentação e no final sempre acabava sobrando torcendo que sobrasse um menino para dançar com ela. E apesar de se apaixonar por todos os seus coleguinhas a cada segundo, ela era sempre aquela amiguinha, pretinha, gordinha e engraçadinha. Nas festas da vizinhança, onde tinha o crucial momento da música lenta, cabia à Gabriela somente assistir os meninos tirarem outras meninas para dançar enquanto ela continuava sentada.

Mas Gabriela continuava…

Quando completou 15 anos não quis festa, seus pais com todo o esforço, deram a ela de presente, um intercâmbio nos Estados Unidos. E ela pensou: Porque não?

Gabriela nessa época, além de samba, começou também a se interessar pelo R&B americano, denominado charme/rap no Brasil. Acredito que seja pelo fato de que ela se via nesses artistas que performavam esse tipo de música. E, portanto, quando Gabriela chegou em Wichita/Kansas, foi um sonho poder consumir mais artistas dessa categoria, participar de festas, etc.

Ela passou um ano estudando em uma escola pública nos Estados Unidos, vivendo com a família americana, onde o pai era branco e a mãe era negra. E essa interação com o povo negro americano começou a fazer a Gabriela entender quem ela era.

Acredito que isso tenha se dado pelo fato de que nos Estados Unidos a questão do racismo e da reação dos negros a isso era bem diferente do Brasil. Ela achava que nos Estados Unidos os negros eram mais unidos, tinham mais identidade e ela achou isso bem interessante.

Um ano se passou e agora Gabriela havia terminado o ensino médio e tinha inglês fluente.

Voltou para o Brasil com aquela vontade de ganhar o mundo. Começou a trabalhar em cursos de inglês, como instrutora, passou pelo curso de Biologia na Universidade de Brasília, mas não terminou. Concluiu o curso de Contabilidade numa universidade particular no Rio de Janeiro, já com 27 anos.

Ao longo desse tempo, Gabriela percebeu que ela não tinha sorte com relacionamento, apesar da bagagem adquirida, boa educação, boa família, etc. Nunca teve um amor para chamar realmente de seu.

Gabriela começou a entender que havia um “problema” com a sua imagem, onde via que nas relações curtas que experienciou, a pessoa com quem estava se relacionando (a maioria delas) não gostavam de aparecer com ela em público, só entre quatro paredes.

Gabriela continuou…

Neste ponto, Gabriela tinha conseguido bons empregos, penso ser por sua formação específica como contadora, pelo fato de falar inglês fluente e mais tarde por ter se especializado na área tributária. Tinha uma economia sólida, o que a fez parar de esperar por um namorado e começar a explorar o mundo.

Gabriela adora viajar, já foi diversas vezes aos Estados Unidos, viajou por diversos outros países como, América e Europa. Fazia tudo sozinha, desde programar em detalhes os trechos, custos… Até ir para encontros de mochileiros em um bar qualquer em Berlim e ver no que ia dar.

Aos 37 anos, Gabriela continuava sozinha e não tinha realizado ainda o seu desejo de ser mãe e ter uma família, trabalhava já num cargo sênior em uma empresa norueguesa de Óleo e Gás no Rio de Janeiro, eis que recebeu uma proposta desta empresa para trabalhar em Oslo, na Noruega.

Ela aceitou…e atualmente vive lá.

A Noruega é um país de primeiro mundo, que por muitas vezes foi considerado um dos países mais felizes para se viver, onde o cidadão nem se preocupa e nem pensa sobre segurança, educação básica, sistema de saúde pois tudo isso está à disposição a todos os residentes que lá vivem, igualitariamente.

Gabriela acha engraçado quando as pessoas dizem para ela, nossa você é muito foda, você é muito inteligente, você é isso, você é aquilo. Ela sempre se pergunta se ela é mesmo, vezes ela acha que ela é, outras vezes ela acha que foi consequência do caminho que ela tomou. Talvez o fato de ter lidado com o racismo, machismo e gordofobia por toda vida, tenha sempre aquela sensação: Será que eu mereço? Porque estou aqui? O que estou fazendo aqui?

Mas em suas reflexões, principalmente nesses momentos em que ela recebe elogios por ser quem é, ela sempre analisa e conclui que se no Brasil, toda a população tivesse as mesmas oportunidades que na Noruega, por exemplo, existiriam várias Gabrielas, ou seja, várias mulheres, negras e gordas, ocupando um espaço de visibilidade na sociedade. E, portanto, pensa que além do mérito não ser só dela, mas de fato de sua família por ter tido a possibilidade de dar a ela oportunidades, que direitos básicos e igualitários para os cidadãos são essenciais para formar pessoas de sucesso, independente de raça, credo, corpo, time de futebol, escola de samba…

Autora: Gabriela Rocha


Gabriela Rocha

Gabriela Rocha é formada em Contabilidade com especialização na área Tributária. Nascida em Brasília, mas com alma carioca. Tem 39 anos e atualmente vive em Oslo, na Noruega. Com espírito livre, seus hobbies são viajar, comer e amar!


Gabriela também é autora do livro: Gabyanna Negra & Gorda


5 comentários sobre “Uma mulher, negra e gorda

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